sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

QUANDO O ACASO CONSPIRA A FAVOR

Fernando - Antoninio - Luis e Gustavo

Muitas vezes as historias de vida se entrelaçam de uma maneira tão intensa que a explicação para quando isso acontece podemos dizer que o acaso esta conspirando.

Ainda estava trabalhando no LID, quando fui designado a montar uma filial na cidade de Recife. A decisão de optar por aquela capital se deu em virtude do grande sucesso que obtivemos num Congresso de Analises Clinicas realizado no Centro de Convenções de Olinda.

Conquistamos neste congresso um numero tão grande de clientes que fomos obrigado a quebrar o planejamento e montar uma equipe de apoio imediatamente. A diretora da empresa retornou à São Paulo e eu fiquei sozinho para organizar, alugar um imovel, comprar moveis, selecionar e treinar o pessoal, que seria um motorista, que teria também a função de vendedor e uma secretaria.
Comecei a procura pelo imóvel e acabei encontrando uma sala num predio recém inaugurado na Avenida Domingos Ferreira, 670. Era um predio todo voltado para a área médica, Clinical Center, portanto, um ótimo lugar para ficarmos instalados.
Clinical Center de Recife - O primeiro escritorio do LID


Depois de resolvido os problemas burocráticos para locação da sala, a próxima etapa seria selecionar os funcionários. Como não tinha nenhuma indicação de candidatos, resolvi colocar um anuncio de bom tamanho no Diário do Commercio, pedindo aos eventuais interessados, comparecerem para entrevista no predio onde a sala estava alugada, pois lá também havia um auditório.

Segunda feira, pela manhã, quando cheguei no predio para iniciar meu trabalho e entrevistar alguns candidatos – esperava que tivesse uns 10 – notei uma fila enorme na frente do edificio. Era muita gente. Nem imaginava do que se tratava. Guardei o carro e quando cheguei na recepção do predio, o zelador disse que o pessoal  que estavam na fila do lado de fora do predio, estavam me aguardando.
Não pude acreditar! Como atender toda aquela multidão? Só tinha um jeito. Chamar em grupos de 50, que era a capacidade do auditório, explicar o projeto, quem poderia se candidatar ao cargo e que todos deixassem seus currículos, com telefone e salario, que eu ligaria marcando uma entrevista individual. Mas frisei que os currículos que não tivessem a pretensão salarial anotada, seriam sumariamente eliminados.


A fila se parecia muito com essa. Era muita gente.

Assim foi feito. Passei praticamente o dia todo atendendo os candidatos. Foram, no total, 420, sendo a proporção de 60% para o cargo de motorista e 40% para o cargo de secretária. Como não tinha um critério pré estabelecido, fiz a primeira seleção baseando no salario que eu pretendia pagar. Todos os candidatos que pediam salários acima do que estava previsto, já eram cortados.

No final da seleção, eu fiquei com quase 50 possíveis candidatos, que era ainda um numero muito alto e marquei para iniciar as entrevistas para segunda feira da semana seguinte. No sábado, antes das entrevistas, passei a manhã na Praia de Boa Viagem, curtindo um pouco de mar e sol e depois do almoço, resolvi passar no predio onde iria funcionar o escritório regional do LID. Não tinha nada para fazer lá. Apenas parei lá de bobeira. Estava conversando com o zelador, quando entrou um rapaz magrinho, que havia participado do primeiro processo de seleção.

- Boa tarde – disse ele. O senhor já fez a seleção? Estou muito precisando deste emprego.

- Boa tarde, respondi. Qual o seu nome?

- Antonino

Procurei a ficha dele e ela estava no grupo dos que eu havia descartado por conta do valor do salario pretendido. Ele se mostrava tão ansioso que fiquei com pena de dizer a ele estava fora do processo de seleção e pedi para voltar na segunda feira para a entrevista.


A foto mostra uma ideia de como era o ambiente

Segunda feira com o auditório lotado, comecei as entrevistas. Chamava à frente e numa mesa colocada na parte alta do auditório, o candidato subia uma escada, sentava numa cadeira de frente para mim e de costa para o publico e ali conversávamos por alguns minutos. Qualquer detalhes era o suficiente para desclassificar. O jeito de sentar, a forma de falar, de olhar etc..
.
Ao final do dia, havia selecionado 12 homens para o cargo de motorista e 08 mulheres para o cargo de secretária e entre eles estava o Antonino.  Pedi aos selecionados para voltarem no dia seguinte, que eu iria fazer uma redação para avaliar o conhecimento de cada um.

Um parenteses. A sala, por conta do predio estar recém construído, era a primeira locação. Ainda faltava conclui-la. Acertar detalhes nos banheiros, nas cortinas, ar condicionado. Tarefas que pretendia fazer tão logo estivesse com a equipe escolhida. Eu não tinha um tema definido para a redação e tive a ideia então de separar 2 grupos de 10 pessoas e pedi para eles irem visitar a sala  e escrever uma redação sobre o que viam nela.


A sala era totalmente vazia.

Como a sala estava vazia e suja, não havia o que ver. Eu esperava que eles vissem naquela sala a esperança de um novo emprego, de melhorar suas vidas, de dar conforto para suas famílias. Quando todos entregaram a redação, prometi ligar para os selecionados para uma ultima entrevista, que teria a presença da Diretoria do LID e do Manoel, que gentilmente se deslocou de Fortaleza para Recife, para dar também sua opinião sobre os melhores candidatos.

O engraçado é recordar as redações que foram apresentadas. Tinham contando o numero de azulejos no banheiro, riscos nas paredes, fios do ar condicionado, enfim, um relatório completo de tudo que havia na sala, mas somente duas pessoas captaram o espirito da redação, conforme eu havia imaginado: o Antonino e uma moça chamada Wania.


Meu grande amigo Manoel. Me ajudou muito na seleção 

Para a seleção final, convoquei 06 candidatos que haviam se saído melhor nas entrevistas, mas eu já tinha os meus eleitos, que eram o Antonino e a Wania, mas a palavra final seria dada pela Diretora e também pelo Manoel. Eles fizeram as entrevistas, fizeram muitas perguntas e no final deu a logica: os que eu havia escolhido foram os contratados.

Puro acaso. A contratação do Antonino deu inicio a uma cadeia de acontecimentos que até hoje a historia não acabou, mas isto vai ficar para uma próxima vez.

Desejo a todos que me acompanham um Feliz Natal e um 2018 com muita prosperidade.




quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

UM GOLPE DE SORTE

Com a contratação da Cleide em Fortaleza e o Manoel como agente de publicidade numa radio FM de Fortaleza, meu trabalho naquela cidade ficou fácil e depois de uns dias por lá, parti para novos horizontes. O foco era melhorar a rentabilidade do Rio de Janeiro, que tinha um grande potencial a ser explorado.
Apolo - Era um carrão na epoca.

Eu precisava de um carro para trabalhar e o LID, embora já tivesse comprado um carro para Fortaleza, ainda não tinha o meu. Fazia as viagens com o carro que tivesse a disposição, as vezes era um bom carro, as vezes uma sucata. Certo dia, me chamaram para conversar a respeito e disseram que iriam me fornecer um carro quando retornasse de uma viagem aos Estados Unidos e neste período eu poderia utilizar o carro da filha deles, um automóvel Apolo, semi novo. Mas antes de pegar o veiculo, o famoso sermão: todo cuidado do mundo, pois minha filha não sabe que o carro vai ser usado, etc...

Como havia dito na capitulo anterior, eu tinha arrumado emprego para meu filho Evandro para trabalhar no interior de São Paulo e quebrando uma regra de não contratar parente, o LID me contratou também. Eramos os únicos parentes na empresa.

Terminada a semana, eu pego o automóvel  Apolo da filha do dono da empresa, que já estava meio derrubadinho, mas era muito melhor que os Gols que a empresa as vezes me emprestava e fui para casa. Cheguei  a noite e todos ficaram curiosos em ver o carro, o que era perfeitamente normal, afinal, depois de quase 04 meses, era a primeira vez que eu  ia para casa com o carro da empresa. Antes era ônibus na sexta e na segunda para voltar.

No final de semana, a família estava toda reunida na minha casa. Havia nascido minha segunda neta, filha do Evandro. Num determinado momento, ele precisou ir a casa dele, que ficava cerca de 10 quilômetros da minha e pediu para ir com o carro Apolo. Meio ressabiado, concordei e ele foi com sua esposa e deixaram a netinha que havia nascido a poucos dia conosco. Era para eles voltarem no máximo em meia hora, mas começou a demorar o retorno, quando batem palma no portão de casa.
- Seu filho bateu o carro na marginal e esta preso nas ferragens.

Panico total! Fomos correndo para o local do acidente e lá chegando eles já haviam sidos retirados do carro e estavam com ferimentos leves, mas o carro estava destruído. Olha como foi: A marginal tem diversas curvas, sendo uma delas bem fechada e ao se aproximar dela ou o freio falhou ou meu filho teve algum mal súbito,  chocando o carro violentamente na traseira de um carro da policia civil, com 04 ocupantes e jogando o carro da policia dentro do riozinho  que corta a marginal. Foi uma queda de uns dois metros.Ainda com carro descontrolado, o Apolo foi de encontro de um muro de uns 4 metros de altura, que com o impacto, caiu parte dele sobre o veiculo, afundando o  capô e o teto do veiculo. Perda total.
O carro era outro, mas o estrago foi igual

Os policiais queria prender meu filho por achar que ele estava embriagado e tive que entrar no meio, me comprometer a ressarcir as despesas e tive sorte que um dos policiais conhecia minha família e ajudou a apaziguar o ambiente.  Minha nora ficou tão abalada, que teve que fazer um tratamento para não perder o leite para amamentar a minha neta recém nascida.

Bem, passado o susto, o carro foi guinchado para uma concessionaria e eu voltei a ficar a pé e de repente, o que estava  se mostrando ser um caminho de prosperidade, num momento, virou um pesadelo. Precisava contar para a empresa o que havia acontecido e com isso eu e meu filho poderíamos ser demitidos, mas quando relatei o ocorrido, eles ficaram bravos, mas entenderam e continuamos trabalhando. Para meu filho compraram um Fiat Uno zero e eu ganhei de presente para trabalhar, um automóvel Lada, semi novo.
Meu carro, Lada. Quebrava e faltava peças

Trabalhei com este carro um bom tempo. Quando quebrava, faltava peças de reposição e então tinha que fazer gambiarras para o carro continuar rodando. Um dia, no Rio de Janeiro, emprestei o carro para o vendedor ir ao aeroporto Santos Dumont buscar uma mercadoria. No caminho, ele perdeu o controle do veiculo e se chocou contra um poste de iluminação e a luminária, que parece pequena vista de baixo, caiu sobre o capô do veiculo, atingindo até a parte de cima do motor. Perda total. Mais uma vez eu estava sem carro.Me arrumaram, tempos depois um gol, aquele com a frente quadrada, e este carro foi meu companheiro por muito tempo e viajei milhares de quilometros sem nenhum problema.
Goiânia - Uma linda cidade

Estava na epoca do congresso anual da SBAC – Sociedade Brasileira de Analises Clinicas e desta vez, na cidade de Goiânia e o LID iria participar. Eu lá chegando, notei que nosso stand ficava ao lado do stand do Instituto Medico Hermes Pardini e lá eles estavam sendo representados por  duas biomédicas,  que acabei ficando  amigo de ambas e sugeri a elas a possibilidade de contratar meu outro filho, o Fernando para fazer o serviço  de coleta, como meu filho Evandro fazia pelo LID. Percebi que haviam gostado da ideia, e a partir deste momento fui o maior cavalheiro  da historia: durante o tempo do congresso, eu as pegava no hotel pela manhã, levava-as para almoçar, para jantar, para sair a noite. Não desgrudei um minuto delas. Fui, na verdade, um guia turístico. Onde elas quisessem ir, lá estava eu para ajuda-las.

Terminado o congresso, voltei para a rotina , mas não deixei de pertuba-las com a idéia de contratar meu filho. Mandava para elas roteiros, listagem de possíveis clientes, quanto custaria o projeto, enfim, dava toda  consultoria para fazerem no Pardini o que eu tinha começado a fazer no LID. Já se aproximava o final do ano de 1995, quando recebi um telefonema do Pardini, pedindo para meu filho ir até Belo Horizonte para fazer entrevista, treinamento e contratação.  Fiquei extasiado de alegria, mas preocupado, pois o Fernando era ainda motorista inexperiente. Tinha pouco tempo de carteira e nunca havia dirigido em estradas.


Chegando em Belo Horizonte, foi muito bem recebido e ficou uns 03 dias fazendo um treinamento e finalmente decidiram que ele iria trabalhar na Região de Pouso Alegre e deram a  ele um carro, dinheiro para a viagem e reservaram um hotel na cidade para ele morar até conseguir mudar para a região, o que aconteceu meses depois, quando mudou para a cidade de  Mogi Mirim.
A vida seguiu, as festas natalinas de 1995 foram perfeitas. Eu e meus filhos estávamos trabalhando e tínhamos muito o que comemorar.  E foi realmente um final de ano muito feliz.

Logo no inicio de 1996, iria acontecer um Congresso Brasileiro de Endocrinologia, no Centro de Exposição de Salvador,  congresso que normalmente os laboratórios não participavam, mas como estava em alta pedir exames hormonais pelos médicos endocrinologistas, o LID resolveu montar um stand neste evento. O mesmo aconteceu com um grande laboratório de São Paulo, que era líder de mercado na época, a CRIESP, além do Instituto Hermes Pardini, que mais uma vez ficamos próximos e foi lá que tudo mudou.
Centro de Convenção de Salvador

Meu filho já estava trabalhando a cerca de 02 meses e estava indo bem. Eu não conhecia o Dr. Hermes Pardini, mas ele, através das bioquímicas que trabalharam em Goiânia e ter conhecido meu filho, veio numa tarde no stand do LID, quando eu estava sozinho e me fez uma proposta de emprego. Ele queria que eu fosse para o Pardini mais rápido possível e ofereceu um ótimo salario e todas as garantias trabalhistas, carro, hospedagem e comissão sobre o resultado alcançado. Aceitei de imediato.

Terminado o congresso, retornei a São Paulo e fui falar com a Diretoria do LID sobre a proposta que havia recebido e aceitado do Laboratório Hermes Pardini. Não deu outra. Virei inimigo no minuto seguinte. Foi um sufoco receber o salario do mês, mas mesmo assim, deixei a empresa e nunca mais, mesmo se encontrando em congressos, eles conversaram comigo. Quando havia a coincidência de estarmos na mesma hora , no mesmo ambiente, eles viravam as costas. Enfim, nunca mais conversarmos e a carreira do meu outro filho ainda sobreviveu por mais uns meses, mas ele também acabou saindo.
Unidade Aymores - Era a central do Pardini em 1995

Quando cheguei no Pardini, fiquei encantado com o tamanho da empresa. Trabalhava muita gente e o movimento era infinitamente maior que o do LID, mas era muito desorganizado, com rotinas ultrapassadas e o setor que eu fui contratado para gerenciar, tinha apenas 06 pessoas e ficava embaixo de uma escada. Cheguei a me perguntar se havia feito a escolha certa, pois mesmo sendo grandioso, a estrutura, no todo, era muito bagunçada.

No dia seguinte, fui chamado ao Departamento Pessoal, onde conheci uma pessoa que se tornou um grande amigo, dentro e fora da empresa, Jorge Goston. Ele, na época, era o responsável pelo Recursos Humanos da empresa e me explicou o funcionamento da empresa , as regras, os objetivos e principalmente o que a empresa esperava de mim. Foi tudo legal até que apresentou um contrato de trabalho com prazo de validade de 45 dias, renováveis por mais 45 dias. Confesso que gelei ao ver aquilo. Havia deixado um emprego onde eu era o manda chuva e estava assinando um contrato, que se algo desse errado, estaria desempregado  45  dias depois.
Dr. Hermes Pardini - Um dos maiores empresarios do Brasil.

Estes primeiros 90 dias foram os mais tensos da minha vida, pois, mesmo querendo fazer, faltava estrutura na empresa. Não havia comando. Não tinha a quem se reportar e ainda não tinha carta branca para realizar o meu trabalho. Neste ínterim, houve um acontecimento que contribuiu muito, vejo isso agora, para o meu  e para o sucesso da empresa. Uma das bioquímicas que eu havia conhecido em Goiânia, que também trabalhou para eu ser contratado, foi sumariamente demitida. Ai, eu perdi todo meu ponto de apoio. Agora estava literalmente sozinho, numa empresa que tinha mais de 800 funcionários.

Mas diz o ditado, que Deus escreve certo em linhas tortas. A partir daí passei a ter contato direto com o Dr. Hermes, que designou o Jorge para ser meu parceiro no projeto e ai as coisas começaram acontecer, mas isto é assunto para outras historias.




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O VENDEDOR DE LINGUIÇAS

Meu primeiro grande desafio na área de apoio

Quando estava por completar dois anos de empresa, houve uma sensível queda nas vendas, parte pelo mercado, parte pelos produtos, que embora fossem de boa qualidade, não tinham competitividade em comparação com produtos similares nacionais. Houve por bem então a empresa optar por deixar os equipamentos em segundo plano e partir para vendas de reagentes para realização de exames laboratoriais. No inicio, eu visitava inúmeros laboratórios, mas as vendas eram pequenas. Surgiu então a possibilidade de nomearmos empresas distribuidoras, que já tinham mercado formado.

Ideia aprovada sai a campo para procurar empresas que se adequasse as necessidades da Wama. Minha primeira parada foi em Curitiba e depois de uma semana naquela capital e ter visitado diversas empresas, finalmente encontrei uma e celebramos um acordo de representação exclusiva para o Estado do Paraná. Em seguida, aproveitando a indicação do representante da capital paranaense, fui visitar uma empresa em Florianópolis e também o nomeamos representante para aquele estado.

Minha missão terminava ali. Eu devia voltar para São Carlos, mas resolvi ligar para a Diretoria da Empresa e pedir permissão para ir até Porto Alegre, procurar outro representante. Devidamente autorizado, cheguei a Porto Alegre com uma lista de 30 empresas que atuavam no ramo. Se eu fosse visitar todas, talvez gastasse uns 10 dias. Resolvi então selecionar as 03 maiores e ver no que dava. Mas, tentando ganhar tempo, tentei agendar um encontro com os diretores das mesmas, mas nada de conseguir. Resolvi então ir direto ao maior deles e ver o que acontecia.

Cheguei nesta empresa por volta de 16:00 horas, já meio derrubado, cabelos despenteados, suado, pois o carro não tinha ar condicionado e estava começando a chover. Fechei o carro e corri rapidamente até a recepção da empresa e pedi  para conversar com um dos responsáveis da empresa. A secretaria olhou pra mim, pro meu estado e quase mandou chamar um segurança, mas por aquele acaso do destino, naquele momento, um dos assessores daquela empresa, que eu por acaso havia conhecido no Congresso de Santos, veio até a mim e perguntou o que eu estava fazendo perdido por lá. Expliquei o motivo da visita e ele prontamente me levou para conversar com o presidente da empresa. Foi o melhor negocio que fiz. Eles se tornaram os melhores representantes da empresa  em todo o Brasil e até hoje, 25 anos depois, ainda são os lideres de vendas de todos os distribuidores do Brasil.
Muito trabalho e muito calor em Cuiabá

Depois desta etapa, praticamente eu não tinha o que fazer na empresa. De quando em quando uma viagem e passava a maior parte parado no escritório e eu sabia que meu tempo na empresa estava acabando. Como disse antes, numa venda que fiz ao Laboratório LID, eu havia conseguido um emprego para meu filho e vi neste laboratório uma oportunidade de criar um serviço similar ao que meu filho vinha fazendo na região de São Carlos em todo o Brasil. Fui até eles e apresentei a ideia. Montaríamos um serviço de coleta de material nas principais capitais do Brasil. Ficaram de pensar. Minha condição era ter um salário fixo, carro e dinheiro para despesas de viagens e hospedagem.
O que estava prevendo acabou acontecendo. Certo dia, o diretor da empresa me chamou em sua sala e disse que o momento não estava bom para a empresa e que teria que me demitir, mas que as portas estavam abertas para eu voltar no futuro, caso quisesse, o que de certa forma acabou acontecendo 15 anos mais tarde
.
Sem emprego e sem nada em vista, resolvi investir na única chance que eu tinha de continuar trabalhando que era o Laboratório LID. Liguei para eles e depois de 02 semanas, finalmente marcaram uma reunião em São Paulo para discutirmos como seria o projeto. Neste tempo que fiquei em casa fiz um planejamento bem detalhado do que pretendia fazer, quem contratar, o custo do projeto e o possível resultado. A reunião estava marcada para acontecer às 14 horas e começou por volta de 19:00 horas. Fiquei sentado na sala de espera da diretoria por 05 longas horas, até que finalmente fui chamado e depois de um longo debate, consegui aprovar a ideia, mas eu não seria registrado pela CLT e teria 03 meses para fazer o projeto acontecer.

Voltando a Salvador pela primeira vez sem estar na LTN

Fechamos o acordo e da parte deles, além de um salário, ficou estabelecido que eu teria direito a um carro, despesas de viagens e hotelaria. O primeiro desafio foi o Rio de Janeiro. Lá tinha um laboratório que se considerava filial do LID, mas na pratica, não tinha nenhuma atuação junto a outros laboratórios.  Depois de 20 dias trabalhando no Rio de Janeiro, tomei a primeira decisão que mudou  o rumo do mercado de apoio a laboratório. Descredenciei  a empresa que representava o LID e contratei um motorista vendedor para visitar e fazer coletas nos laboratórios, a medida que fossem sendo cadastrados.

Trabalhei direto no Rio de Janeiro por cerca de dois meses e ao final deste tempo já tinha feito contrato com mais de 50 laboratórios e estávamos mandando diariamente para São Paulo uma caixa de isopor cada vez maior com as amostras  coletadas. Passei a partir daí a ter o apoio total da diretoria.

Dali, fui para Cuiabá, onde tinha uma situação similar ao Rio de Janeiro e fiz a mesma coisa. Mandei a empresa para e contratei uma vendedora da cidade e o resultado apareceu rapidamente. Tendo o Rio e Cuiabá produzindo muito bem, voltei minha atenção para o interior de São Paulo, onde trabalhei um tempo com meu filho e reestruturamos o sistema de coleta de exames para os moldes que existe hoje. Explicando: no inicio as coletas eram feitas semanalmente. O mesmo motorista visitava 05 rotas diferentes, sendo um por dia. Em São Carlos, com meu filho, resolvemos mudar o sistema e modificamos as rotas para as coletas serem feitas diariamente. A produção triplicou em menos de um mês. Foi um golpe de mestre.

Com tudo funcionando, agora o projeto previa expandir os negócios para outros horizontes, mas antes tinha que fazer um trabalho em Salvador, onde existia uma filial do LID, tocada por um médico  que era sócio da empresa. Ali trabalhei sozinho 15 dias, visitando laboratórios no interior da Bahia. Andei por dezenas de cidades, de Vitória da Conquista a Juazeiro e de Ilhéus a Feira de Santana. Era uma visita atrás de outra e no final consegui cadastrar umas 30 empresas, que passaram a enviar seus exames para o LID via correio.

O carro da linguiça era parecido com o da foto.

Mas meu projeto de expansão ainda não havia começado. Queria criar frentes de trabalhos novas e ai que começa uma nova historia envolvendo a LTN.

Volta à cena o meu amigo Manoel Santander. Nesta época, a LTN já tinha mudado sua forma de atuar e o escritório que eles tinham em Fortaleza havia sido fechado e o Mané ficou desempregado. Morando numa casa maravilhosa no Bairro Água Fria, pegado a Aldeota, bem próximo das praias, ele levava uma vida muito boa.  Ficando desempregado, ele e a Cleide, tiveram a ideia de produzir linguiça caseira e vende-la para o comercio em geral. Ele tinha comprado uma caminhonete com  carroceria de madeira e com cobertura de encerado.

A linguiça era produzida nos fundos de sua casa e havia até um quartinho feito especialmente para defumar a linguiça calabresa. Era uma vida muito sofrida. Semanalmente tinha que ir ao frigorífico comprar carne para o preparo e a carne para este tipo de embutido é a que fica grudada na  parte interna do couro do boi após o mesmo ser abatido. Fui com ele certa vez comprar esta carne e era um espetáculo muito triste, pois o carro ficava estacionado bem próximo de onde os bois eram mortos. Sentia o cheiro da morte no ar.

Frigorifico FriFor 

O Manoel saia para viajar pelo interior do Ceará nas segundas feiras e voltava somente quando havia vendido todo o estoque. Ele odiava aquele trabalho e a Cleide o dela, que era literalmente fazer e defumar a linguiça. Eu mantinha sempre contato por telefone com o Manoel e numa das conversas disse a ele que estava num novo projeto e gostaria de oferecer a ele a oportunidade de representar o LID em Fortaleza.

Ele ficou muito feliz com a ideia e eu marquei de visita-lo algum tempo depois. Quando cheguei a Fortaleza, o Manoel já estava desistindo do projeto de vendedor de linguiça e estava sendo contratado para ser representante comercial de uma Radio FM local. Iria vender anúncios para a emissora. Ele pediu que eu passasse o serviço do LID para a Cleide, que embora não tivesse por ela ainda uma grande amizade, reconhecia nela um grande talento para vendas e fechamos negócio.

Defumador de linguiça

Trabalhei uns dias com ela visitando alguns laboratórios de Fortaleza e prometi arrumar um carro para ela poder desempenhar suas funções, visto que ela utilizava para trabalhar um Fiat 147, importado de Ribeirão Preto, que já estava pra lá do fim de sua vida útil. Era uma sucata mesmo. Tempos depois consegui convencer a diretoria do LID e eles autorizaram a compra de um Gol 1996, tirado zero na agencia de Fortaleza. Ela trabalhou com este carro por muitos anos e quando saiu da empresa, ficou com o carro por conta de indenização.

A caranga na epoca foi tirada zerada na agencia


Muito tempo depois, a Cleide já dominava todo o mercado de Fortaleza e de varias cidades na região e tinha uma carteira de cliente muito forte. Com esta experiência, ela foi convidada a trabalhar num outro laboratório, chamado Álvaro, onde continuou fazendo sucesso. Um dia o Manoel a acompanhou, mas isto é outra historia.

sábado, 25 de novembro de 2017

CAMARÃO PARA OS MORADORES DE RUA

O titulo deste episódio pode parecer estranho, mas foi um dos momentos mais engraçado do meu tempo de vendedor de produtos para laboratório,  ainda na Wama Diagnóstica.

Paella Vallenciana
Como disse antes, a Wama era uma empresa nova, embora tivesse surgido a partir do Laboratório Médico Dr. Maricondi, uma empresa já bem consolidada na cidade de São Carlos,  por iniciativa do seu Diretor Presidente e os produtos que vendíamos ainda não haviam emplacado no mercado, devido a concorrência, situação financeira do Brasil, que ainda estava se recuperando do dinheiro que o Governo do Presidente Collor havia confiscado no primeiro dia de governo. Tínhamos  um aparelho que fazia leitura de placas para analisar alguns exames de imunologia, dois modelos de aparelho para realização do exame VHS, que era novidade mundial, um sistema que prometia água pura e ultrapura para uso laboratorial e pipetas austríacas, que embora de excelente qualidade, eram mais caras que as concorrentes brasileiras.
Modelos de pipetas
O dia a dia era muito intenso, muitas visitas e pouquíssimas vendas. Já estava temendo que a qualquer momento a empresa pudesse encerrar suas atividades.  Reconheço que na época foram muito ousados e continuaram investindo na empresa, mesmo com as vendas em baixa e hoje a WAMA se transformou numa empresa de âmbito internacional.

Local onde foi realizado o Congresso da SBPC em 1993
Naquela época, iria acontecer um Congresso de Patologia Clinica na cidade de Santos e o local escolhido para o evento foi o Shopping Miramar. Este congresso é muito concorrido e é realizado anualmente sob a chancela SBPC – Sociedade Brasileira de Patologia Clinica e tem por característica a presença de muitos proprietários de laboratórios de toda parte do Brasil e é o local ideal para realização de novas vendas e apresentação dos aparelhos.

Para incentivar o nosso desempenho, a diretoria da empresa prometeu pagar a vista, no termino do congresso, a comissão de todas as vendas realizadas. Eu e o meu amigo de viagem não deixava passar um congressista sem que o chamasse para o nosso stand e conhecesse nossos produtos. No final do 4° dia de congresso, havíamos vendido o valor equivalente a 06 meses de trabalho, o que ajudou muito no orçamento da empresa e no meu, em particular.

Como nada ocorre por acaso, ao lado do nosso stand estava o montado o stand do Laboratório LID. No dia a dia acabei fazendo amizade com os diretores desta empresa e fiquei de visita-los depois do congresso para instalar um sistema de purificação de água. Isto acabou ocorrendo um mês depois. Foi muito bom, pois além de efetuar a venda do aparelho, consegui arrumar emprego para meu filho Evandro, que viria a ser o primeiro vendedor de serviços de apoio a laboratórios. Foi o pioneiro de um mercado que só cresce, mas isto vai ficar para outra historia.

Durante o congresso, um grupo de empresários estava no nosso stand e era horário de almoço, e me convidaram para juntar a eles. Além de mim, foi também meu diretor, um parente  dele e mais 05 ou 06 pessoas.

Para meu poder de compra, o meu limite era um PF, mas como estava com o chefe e o pessoal  que estavam juntos também gostavam de uma boa comida, resolveram ir ao Restaurante Vista do Mar, na Praia do Embaré, ao lado da Praia do Gonzaga.

Este restaurante, cujo slogan é Rei da Paella Valenciana, é um dos melhores do Brasil e um dos mais caros também. Chegamos ao restaurante por volta de 13h30min horas e a casa estava praticamente vazia. Ajeitamos-nos numa mesa grande e veio o maitre oferecer os serviços e eles pediram a Paella, com entrada de casquinha de siri. Quantas para todos nós? – perguntou alguém. Creio que 05 serão suficientes, respondeu o maitre. Fechado!


Logo depois chegaram as casquinhas de siri, o couvert, refrigerantes e o grupo ficou conversando sobre negócios, família e outras besteiras enquanto o prato principal não chegava.  Passado uns 30 minutos, eis que começa a chegar o prato principal, mas era tanta comida, mas tanta comida, que daria para alimentar umas 30 pessoas tranquilamente. Houve protesto junto ao maitre, mas a comida estava na mesa, então vamos a ela. Os camarões eram enormes e muito. Um verdadeiro banquete. Confesso que comi tudo que podia e mais um pouco, mas era muito comida. Quando havíamos terminado, parecia que nem tínhamos almoçado. Tinha tanta comida sobrando, que até hoje tenho aquela imagem gravada na mente.

O volume era maior que o da foto, colhida no Google.
Para sacanear o maitre que tinha empurrado aquela quantidade enorme de comida, foi pedido que o que sobrou fosse colocado em “quentinhas”, que iríamos levar. Acredito que eles não esperavam por isso! Recolheram a sobra da comida e trouxeram a conta. Posso garantir que hoje aquele almoço custaria algo em torno de R$ 2.000,00. Bem, diz o ditado que cabrito bom não berra. Pagaram a conta e ficamos esperando as quentinhas. Quando elas ficaram prontas, creio que tinha mais de 15 lotadas até a boca com aqueles camarões enormes em cada uma delas.

Aquele dia eles almoçaram muito bem.
Colocamos numa caixa e voltamos para o congresso via praia e deparamos com um monte de mendigos deitados num canto da Praia do Gonzaga. Vamos dar esta comida para eles – disse um do pessoal do grupo. Voltamos com o carro, paramos ao lado deles e perguntamos se alguém queria comida. Foi um tal de neguinho levantando correndo e vindo em nossa direção e começamos a distribuir as quentinhas. Teve até que pegasse duas. E era engraçado vê-los todos felizes, comendo aqueles camarões com as mãos.

Voltamos para o Congresso e este foi o assunto contado varias vezes em diversas oportunidades. Coisas do Brasil!

Continua


terça-feira, 21 de novembro de 2017

A MORTE PEDIU CARONA E EU QUASE PAREI PARA ELA

Fortaleza - todos merecem conhece-la
De volta à São Carlos, a vida voltou a rotina de vendas. Algumas viagens até São Paulo, outras nas cidades circunvizinhas, cada dia aprendendo alguma coisa nova, até que num determinado dia, lendo o Diário Oficial, notei que haveria uma concorrência publica em Fortaleza para compra dos aparelhos que vendíamos. Concorrência publica, para quem nunca participou é a venda mais tranquila e a mais complicada que existe. Você não tem que dialogar com ninguém, apresentar vantagens comerciais ou técnicas, você tem apenas que estar apto para participar do embate e para isso são exigidos muitos documentos e declarações. Você tem que apresentar certificados de  pagamentos de INPS, FGTS, PIS, Confins, Contrato social, numero de funcionários da empresa, currículos dos funcionários responsáveis por setor e montar um planilha técnica do produto e outra planilha de preço. De verdade, isto leva em média 03 dias bem trabalhado para estar tudo em ordem.

Ao chegar no local da concorrência, o pregoeiro recebe as propostas das empresas, todas em 02 envelopes lacrados, num constando os documentos e no outro a proposta de preço. Aberto o pregão, todos os participantes começam a conferir a documentação do concorrente e se estiver faltando um documento, você é eliminado sumariamente. Quando tudo esta conferido, as empresas consideradas aptas começam a participar de um leilão, onde a ganhadora será aquela que oferecer o melhor preço. Simples assim.

Bem, esta introdução é apenas para dar inicio a um dos momentos mais tensos e que senti mais medo em toda minha vida de viajante.  Fui chamado na diretoria da empresa e perguntaram se eu poderia ir de carro a Fortaleza participar da concorrência e eu prontamente aceitei. Ainda faltavam 15 dias para a data de abertura dos envelopes, mas por algum motivo que não consigo explicar, disse aos meus chefes que viajaria no dia seguinte e iria aproveitar para divulgar a empresa visitando alguns laboratórios no caminho. Na realidade, estava querendo chegar logo em Fortaleza, onde o Manoel morava e ficar uns dias de folga.  Tudo acertado me adiantaram um pouco de dinheiro e a promessa de depositar em minha conta valores, na medida em que eu fosse precisando para gasolina, hotel e refeição.

No dia da partida, sai cedo e pretendia dormir em João Monlevade, pra que não conhece, fica uns 80 quilômetros depois de Belo Horizonte. A viagem foi tranquila, embora já chegando a João Monlevade, tive que enfrentar, sob muita chuva, um longo trecho de estrada muito sinuosa, mas cheguei sem nenhum problema no hotel.  Minha meta para o dia seguinte era chegar a Vitoria da Conquista e dependendo do estado da estrada, talvez a Jequié, ambas as cidades já na Bahia.


A curva que me acidentei pode ter sido esta, segundo o Google
Tomei um café reforçado e comecei minha viagem em direção a Vitoria da Conquista. A primeira cidade, saindo de João Monlevade, pela Rodovia MG 381 é Bela Vista de Minas, um lugar pequeno, localizado no pé de um grande morro. Bem, eu estava viajando tranquilo, embora com chuva, subindo uma grande ladeira e bem no alto desta ladeira, a pista tem uma curva fechada, que de um lado tem as paredes do morro e do outro um precipício . Não sei como esta aquela estrada hoje, mas naquele dia que eu passei por lá, não havia nenhuma proteção.  A curva, não era difícil de ser feita, creio que com o tempo seco, poderia ser contornada, sem dificuldades com velocidade de 80 km por hora, mas no momento que eu estava passando por ela meu carro derrapou no óleo deixado pelos caminhões e o carro saiu girando em direção ao abismo e como ainda não era minha hora, o carro caiu com a roda esquerda traseira num buraco e parou.


 Embora tenha parado, o carro ficou atravessado na pista contrária e eu estava desesperado, querendo tirar o carro daquela posição e nem estava imaginando o perigo que havia corrido. Só queria tirar o carro daquele local,  pois tinha medo que algum outro veiculo viesse de encontro. Com muito esforço, consegui endireitar um pouco o carro, deixando-o alinhado com a pista contrária, mas já não conseguia rodar mais, pois o eixo traseiro havia quebrado com a pancada. Demorou uns 30 minutos para chegar um carro guincho da cidade de Bela Vista de Minas. Com meu carro guinchado e começar a seguir em direção a cidade, não tinha ainda percorrido nem uns 100 metros, um carro derrapa na mesma curva e passam reto em direção ao abismo. Se eu tivesse ficado ali mais uns minutos, este veiculo iria se chocar diretamente  com o meu e ai o resultado poderia ter sido outro. Neste acidente, no carro que caiu no abismo tinha 03 pessoas todas morreram.




Meu deu uma crise de nervo, de medo, uma coisa muito estranha. Nunca senti nada deste jeito. A impressão é que eu tinha alguma coisa muito forte ao meu lado, me protegendo. Meu anjo da guarda me afastou da morte aquele dia.
Fiquei parado em Bela Vista de Minas por 04 dias esperando chegar um novo eixo e neste tempo acompanhei a angustia das famílias das pessoas que haviam morrido. Eram todos moradores da cidade e a consternação era geral. Fiquei sabendo depois que já tinham acontecido muitos acidentes naquela curva, alguns com vitimas fatais.



Tradicional feirinha de artesanato de Fortaleza - Imperdivel

Quando o carro ficou pronto, segui viagem para Fortaleza e o resto da viagem foi tudo tranquilo, mas posso dizer que a morte me pediu carona e eu quase parei para ela montar.


Continua 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

RUMO A ITAJAÍ – SANTA CATARINA


ITAJAÍ - SANTA CATARINA

Com o passar do tempo, fui me adaptando ao mercado e recebi para trabalhar um veiculo Gol, 1989, já refrigerado a água e este carro foi meu companheiro por 02 anos.  As viagens eram constantes para diversas cidades e a assim como eu, a empresa também era nova no segmento de produtos para laboratórios. Havia sido fundado a menos de 02 anos, portanto era totalmente desconhecida do mercado.

Isto era um complicador. Muitas vezes você chegava num laboratório, tomava um tremendo chá de banco e era recebido, quando era, por uma pessoa que não tinha nenhum poder de decisão. Atendia por educação ou muitas vezes ninguém atendia. A própria secretária te dispensava já no atendimento. Fase difícil a de implantação de uma marca. Hoje, passados 25 anos de sua criação, a WAMA é conhecida em todo território nacional e seus produtos também são importados para diversos países da América do Sul, África e Oriente Médio.

O CARRO ERA BEM PARECIDO COM ESTE DA FOTO
Bem, voltando ao meu carro, eu utilizava um bagageiro, destes que se coloca e tira facilmente, para transportar um volume maior, pois o espaço interno do Gol era pequeno.  O mercado de analises clinica é muito concorrido, e a melhor opção para se mostrar ao publico é a participação em congressos. Eles acontecem com frequência e em diversos locais. É sempre uma ótima oportunidade de se apresentar aos possíveis compradores  e que seu produto é bom.

Num desses eventos, foi que aconteceu a minha primeira aventura digna de ser contada. Fizemos a inscrição para participar de um congresso regional que iria ser realizado na cidade de Itajaí, cidade próxima à Florianópolis. A promessa do organizador era a participação de 500 congressistas, sendo a maioria donos de laboratórios e estudantes já em fase de conclusão do curso de biomedicina, o que parecia ser ótimo para nós que estávamos começando.

Resolvermos apostar alto neste evento e para impressionar resolvemos levar 03 aparelhos diferentes, todos modernos e revolucionários para a época, como uma leitora de placa, um aparelho de VHS e um sistema de filtragem de água. Estes aparelhos valiam uns $50.000,00, quase 10 vezes mais que o valor do carro. Como não cabiam dentro do veiculo, a solução foi coloca-los no bagageiro, envolver com encerrado e amarrar da melhor maneira.  Estava tudo pronto para empreender a viagem de mais de 2000 quilômetros com ida e volta.











Embora não fossem pesados, os aparelhos deviam pesar no total uns 50 quilos, eram volumosos e sobre o carro ficou um pacote de uns 80 cm de altura por 1,00 m de extensão, todo envolvido em lona e bem amarrado e saímos para a viagem, logo pela manhã. O dia estava nublado e para cortar caminho, tomei o destino de Sorocaba e desci aquela serra estreita até Juquiá, onde peguei a BR 116 em direção a Curitiba. Até Piedade, antes da serra, estava indo tudo bem, mas ao entrar na cidade, passei um pouco rápido numa lombada e o bagageiro soltou. Sorte que estava devagar, pois o volume não chegou a cair, mas esteve por alguns centímetros de causar um baita prejuízo e uma provável demissão.

Cabeça da Anta - Ponto de Parada obrigatória na descida da Serra de Juquiá

Descemos do carro e com muito esforço, prendemos novamente o bagageiro e seguimos viagem com o maior cuidado na descida da serra.  Quando pegamos a BR-116, já na altura de Registro, começou a chover forte, mas era muita chuva mesmo, tanto que tivemos que parar num posto de gasolina e aproveitamos para verificar a amarração. As cordas tinham afrouxados e os aparelhos, agora também por conta da chuva, já tinha perdido a estabilidade.  Não dava mais para confiar na amarração e nas garras do bagageiro. Estávamos correndo o risco de deixar os aparelhos caírem pela estrada e então fizemos a única coisa possível.  Uma nova amarração, só que desta vez, passando a corda por dentro do carro, pelo vidro das portas. A amarração ficou firme, mas para entrar no carro, somente pela janela. Imaginem a cena: eu entrando num gol pela janela. Foi difícil fazer passar a barriga e dali até Itajaí, foi um desconforto para dirigir, pois a corda passava atrás do pescoço e o vidro não fechava totalmente e como chovia, entrava água no carro. Tivemos  que fazer mais duas paradas e nelas as cenas se repetiam: sair e entrar no carro pelas janelas.

Finalmente, sem mais incidentes, chegamos a Itajaí, molhados, com dores no corpo, mas estava tudo bem. Fomos para o hotel,  arrumamos nossas coisas, e depois fomos para o local do congresso para instalar os aparelhos e deixar tudo pronto para o dia seguinte, quando o evento iria começar. Ao chegar ao local, estranhamos, pois tratava de um colégio e os stands foram montados na área de recreio da escola. Uma coisa muito estranha, mas como os organizadores eram pessoas muito conceituadas no meio laboratorial, acreditamos que tudo estava dentro do previsto. Montamos os aparelhos, os panfletos, deixamos tudo em ordem e vimos que estávamos somente nós até aquele momento, embora houvesse alguns stands vazios, com nome de outras empresas, desconhecidas para nós.

À noite, saímos para jantar e resolvemos passar no local do congresso para ver como estava e vimos que haviam chegado mais algumas empresas, todas da área farmacêutica, com milhares de folders, amostra grátis de medicamentos. Nada a ver com o nosso mercado. Voltamos para o hotel  e no dia seguinte, todo paramentado com terno e gravata, chegamos um pouco mais cedo para dar um ultimo retoque no stand e aguardar os visitantes.  

Normalmente, congressos abrem por volta de 09h00min horas e quando este horário chegou, havia passado pelo stand apenas duas pessoas, sendo uma delas o organizador e outra o responsável pela locação do espaço. Nada de congressista. Nisso tocou a sirene do recreio e para nossa surpresa, o colégio, no período da manhã tinha somente alunos cursando o primário. Era criança pra todo lado, pegando panfletos, correndo de um lado para o outro, uma barulheira infernal. Até remédio de amostra grátis acabaram levando e nada de congressista.
A situação era parecida com a da foto, mas tinha crianças menores ainda

Quando as crianças voltaram para suas salas, o espaço dos stands estava uma verdadeira bagunça. Material de publicidade das empresas expositoras  estavam ali espalhados por todo lado, uma orgia. Ai, todos os expositores se reuniram e fomos conversar com o organizador, que disse que se sentia constrangido,  que sentia muito, mas somente 06 congressista confirmaram presença. O congresso que estava previsto para acontecer em 03 dias, acabou uma hora depois de ter começado. Um baita prejuízo.

Pensar que tínhamos passado tanto sacrifício na viagem para nada era frustrante. Tentamos marcar alguma visita a algum laboratório da região, mas não conseguimos e só restava voltar. Ai  fiz uma coisa que resolveu o nosso problema com a viagem. Fui numa oficina e pedi para o mecânico soldar o bagageiro no carro. Vai estragar a pintura, disse ele. Manda brasa. Depois mandamos repintar.  E assim foi feito. O bagageiro foi soldado, a pintura nunca foi feita e o carro foi vendido tempos depois do mesmo jeito que trabalhei com ele por quase dois anos.

Continua.



sexta-feira, 10 de novembro de 2017

UMA NOVA ERA


Quando resolvi deixar a LTN e partir para uma aventura empresarial, hoje posso dizer suicida, não imaginava o quanto difícil iria ficar minha vida no aspecto financeiro.  Eu não tinha um super salário, mas o que ganhava era um valor muito maior que eu poderia almejar no mercado, pois ele me proporcionava uma boa vida, bem como a toda minha família.

Com o passar dos dias, o barco dava mostra de afundar. A editora que havíamos montado, parte pela situação econômica do Brasil na época e parte pelo desentendimento entre os sócios, já não estava produzindo o suficiente nem para pagar as despesas mínimas necessárias, e com isso, passamos a ficar sem salário, o que nos obrigou a passar usar a poupança para as nossas despesas pessoais. A duras penas, conseguimos sobreviver neste estado mais uns 06 meses e ai começou a debandada.


A Editora Paulista, que originalmente era composta de 11 sócios, passou para o comando de apenas 03 e acabou encerrando as atividades meses depois. Era o fim de um sonho  e o inicio de um pesadelo. O que fazer para manter a família? Acostumado com uma vida fácil, boa comida, hotéis de primeira qualidade, viagens constantes, de uma hora para outra, estava do outro lado, sem dinheiro, com cartões de créditos estourados e bloqueados, nome do SPC, cheques devolvidos e o pior, desempregado.

Dava impressão que o mundo havia parado. Todas as portas que conhecia estavam fechadas e o que eu sabia fazer? Ajudante de carpinteiro com meu pai ou vendedor. Mas vender o que? Tentei planos de saúde, rifas, carnê de sorteio de automóveis para um clube, mas nada dava certo. O que conseguia ganhar, mal dava para comprar comida para a família. Foi um período agonizante. Diz um ditado popular “que não tem mal que não acabe e bem que sempre dure”. E um dia, por acaso, somente por acaso, este período, que parecia uma tempestade tropical, cessou.

Voltando para casa, depois de uma semana trabalhando com plano de saúde da Blue Life em Ribeirão Preto, passei por uma festa tradicional na minha cidade e encontro um colega, que havia conhecido numa entrevista de emprego e conversamos alguns momentos e ele deixou escapar que estava a procura de um novo emprego, pois não suportava a ideia de viajar quase que diariamente para um laboratório de analises clinicas da cidade, onde exercia a função de vendedor de produtos para realização de exames. Quando disse isso, me empolguei e disse que este emprego me interessava. Será que ele podia me apresentar aos proprietários para uma entrevista? Claro, com todo prazer, respondeu.


No dia seguinte, ele agendou uma entrevista com a coordenadora do laboratório e no dia marcado, vesti um terno e fui todo alinhado conversar sobre o emprego que meu colega já não se interessava mais. Confesso que diante da necessidade, esta foi talvez a entrevista mais tensa que fiz em toda minha vida. A pessoa que me entrevistou era uma japonesa, que media no máximo 1,50m e pesava, com muito esforço, uns 45 quilos e eu com 1,92 m e 120 quilos, causava um contraste estranho e ficamos conversando em pé uns 10 minutos. Eu suava, não tanto pelo calor, mas pela preocupação de não agradar a entrevistadora, quando ela finalmente começou a conversar. O povo japonês, via de regra, não são de falar muito no inicio de uma conversa com estranho.  Depois que pegam confiança, ai fica mais fácil e o dialogo flui.

Ela gostou de mim! Incrível, mas ela ficou encantada com minhas palavras, com minha disposição e disse uma frase que soou como musica: “gostei de você, vou te dar uma oportunidade”. Faltou pouco para eu dar um beijo naquele pedacinho de gente. Com o passar do tempo ficamos amigos e hoje sei que ela mora no Japão, mas foi, com toda certeza a pessoa mais importante na minha carreira que eu iniciava, sem saber nada de laboratório de analises clinicas. Se não fosse aquele encontro casual com meu colega, que nunca mais vi e a entrevista com esta japonesinha as historias que irei contar daqui para frente jamais existiriam.


A partir da minha contratação pela empresa Wama Diagnóstica, da área de laboratórios de analises clinicas, perdi contato com o pessoal da LTN e dos meus sócios, que acho justo citar, como forma de homenagem a coragem de empreender num projeto que tinha tudo para dar certo, mas por uma mudança na política brasileira (mais uma) tudo ficou inviabilizado. São eles: Dimitrios, A.Guerreiro. Pinatti, Aílton, Marco Antonio, Silva, Manoel, Prado, Paolo. Braw e eu. A expressão, trocar o certo pelo duvidoso nunca serviu tão bem, como no caso da Editora Paulista.

Vida de vendedor, agora de serviços laboratoriais.

Depois de superadas as normas burocráticas da admissão, fiquei a disposição da empresa, para fazer um curso básico de analises clinicas, para entender o que eu iria vender. Tratava-se de Kit para realização de exames de Rubéola, Toxoplasmose, HIV, e outros e começaram a aparecer palavras que nunca havia tido contato, como anticorpos, antígenos, reagentes, EDTA, citrato de sódio, plaquetas, hormônios, TGO, TGP, imunofluorescência e outras infinidades de nomes técnicos que desconhecia completamente.

A pessoa que foi indicada para me ensinar, um engenheiro químico, que estava com sua agenda lotada e não tinha tempo para ficar me ensinado, me  dava um monte de revistas técnicas para eu ler e prometia voltar em breve para tirar algumas duvidas. E eu ficava o dia todo lendo, lendo e entendendo muito pouco. Fiquei nesta situação uns 10 dias.

Passado este tempo, surgiu à necessidade de fazer uma viagem até Curitiba e o motorista da empresa que iria levar um biomédico para fazer a apresentação de um aparelho ficou doente e perguntaram se eu poderia fazer a viagem, visto que o técnico não sabia dirigir. Aceitei prontamente.

Durante a viagem, o biomédico não conversava muito, pois ainda não me conhecia, tinha que estudar o aparelho que iria fazer a apresentação e sofria do mal do sono do passageiro. Lia um pouco e dormia. É horrível dirigir com alguém dormindo ao seu lado, pois o sono contagia, mas era minha primeira viagem e precisava do emprego, fiquei na minha e chegamos a Curitiba, depois de 10 horas de viagem, sem nenhum incidente.


Quando nos hospedamos, eu entrei no meu quarto, quase tive uma crise de choro, pois o hotel era 04 estrelas e eu tinha passado os últimos dois anos dormindo até no chão ou no banco de trás do meu Chevette. Ali, sozinho, disse pra mim mesmo: vou mudar minha vida a partir de agora. Vou fazer desta área de laboratório a razão da minha vida e vou vencer.

No dia seguinte, fomos até um grande laboratório para fazer a apresentação e montamos o aparelho num pequeno auditório e quando tudo estava pronto, chegaram cerca de 20 pessoas para ver a demonstração da maquina, que era um lançamento mundial e iria revolucionar diversas técnicas de fazer alguns exames, tanto em tempo como em qualidade de resultado. Meu colega nunca havia feito nenhuma apresentação para uma plateia e começou a mostrar insegurança ao falar. Percebendo isso, eu, que nada sabia do uso do aparelho, mas sabia como entreter o publico, entrei na conversa e comecei a desviar um pouco o foco do publico, permitindo que ele readquirisse a confiança para seguir com o curso. 

Aquilo deu tão certo, que mantivemos esta parceria por mais de 01 ano e vendemos muitos aparelhos. No final deste tempo, eu já dominava bem a matéria e cheguei a realizar algumas vendas sozinho.

Continua...