sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Capitulo 3 -  O Paletó de Couro



A primeira atribuição dada pelo Cavalcante a mim foram dois pacotes com 10 fichas de clientes novos cada. Estas fichas estavam localizadas na sua maioria na Avenida Paulista e imediações e eram as fichas que os veteranos nunca visitavam, pois, o índice de aproveitamento era pífio. Ninguém, já com experiência se interessava em visitar firmas de advocacia, dentistas, médicos pois o veículo Guia Brasil Telex não vinha de encontro aos interesses deste segmento de mercado, mas como estávamos iniciando, tudo era novidade, portanto, não havia o que reclamar; as visitas eram feitas e o resultado era o previsível. A maioria de nós que estávamos iniciando entravamos improdutivos, e era uma sensação horrível, pois todos os veteranos traziam vendas e nós nada.  Uma exigência era que todos deveriam trabalhar de gravata e paletó, o que não era muito compatível com a época, visto os automóveis não terem ar condicionado e você entrar no cliente todo desalinhado, suado, descabelado.

Foi o que aconteceu comigo. Quando entrei na LTN estava numa situação financeira para lá de horrível. Vendia o almoço para comer na janta, quando conseguia, e a única indumentária que eu tinha na época, era um paletó de couro preto, pesado, feito especialmente para o frio, mas era o que tinha, portanto, como era obrigatório o uso do paletó e da gravata, lá ia eu visitar aquelas empresas da Avenida Paulista e vender que é bom nada, mas um determinado dia fui visitar uma empresa na Rua Frei Caneca e quando cheguei ao local, a pessoa que me atendeu, mandou eu tirar o paletó e ficasse a vontade. 

Minha camisa estava encharcada de suor e para que eu me esfriasse um pouco, ligou o ar condicionado, mandou servir um suco de laranja e conversou um tempo comigo sobre as atividades da sua empresa, que era uma distribuidora de material de escritório e finalmente falamos do motivo da minha visita, que era fazer uma publicidade no Guia Brasil Telex. Acho que até por pena e não por necessidade, aquele sujeito autorizou que o nome da sua empresa fosse inserido na próxima edição com um negrito. Foi minha primeira venda. Não cabia mais dentro de mim e nem dentro do paletó.

Foi o máximo para mim. A tarde cheguei para o atendimento todo orgulhoso, suado, mas orgulhoso, afinal tinha feito meu primeiro contrato e aí outros vieram naturalmente, mas o primeiro ninguém esquece! Neste dia, o Cavalcante informou que iriamos começar a viajar a partir da próxima semana e o nosso primeiro trabalho seria feito a partir de Porto Alegre, portanto, tínhamos que avisar a família que iriamos ficar um tempo fora, pois, todas as equipes estariam juntas e iriam visitar todos os clientes da região sul, num prazo de 60 dias aproximadamente. Uma boa lembrança desta época consegui obter de uma publicação do Kaká (Jose Carlos Fecuri), com as equipes formadas e foi nelas que nós, os novatos, entramos. Matem a saudade?

SUP. MENEGHETTI: Alcio - C. Pereira - Genilson - Reginaldo - Araújo - Silvestre - Barra Grande - Granconato - J. Aparecido.

SUP. MORALES: Ortiz - Virginio - Reinaldo - Salles - Hildebrando - Lourenço - R. Souza - Visgueiro - Dalaro.

SUP. JAIR: Benito - Clóvis - Julidori - Herivelto - Castro - Altran - Ortolani - Claudecir - J. Roberto.

SUP. CAVALCANTI: Agno - Petrilli - Nair - Anfrísio - Ulisses - Edmundo - Expedito - Trindade - Cida (Ex-chacrete)

SUP. MARCOS: Mairo - Jarbas - Coutinho - Roseana - Adriano - Leda - Dimitrios - Bértolo - Lucas.

SUP. A. CARLOS: Mara - Zatiti - Wellington - Vasco - Nicolau - Simões - Spineli - Augusto - Ribeiro.

SUP. ALEXANDRE: Valdir - Medeiros - Gonçalves - Vicente - Fonseca - Olímpio - Demarco - Marçola.

SUP. SILVIO: Fabiano - C. Dourado - Walter - David - J. Silva - Nivaldo - Kleens - J. Rubens.

O tempo conspira, mas guardo lembranças de alguns deles, que pode não ser mesma de vocês, mas ajuda a recordar.

Meneghetti – Era um sujeito duro, mas leal. Protegia a equipe e quem não o conhecia, em primeiro momento, não queria trabalhar com ele, mas ele sempre foi um grande líder e levava suas equipes a disputarem os primeiros lugares em todas as campanhas. Somos amigos até hoje.

Morales – Não tive nenhum contato comercial com ele. Ele saiu da empresa no final do ano de 1985, mas diziam ser uma boa pessoa.

Jair – a exemplo do Morales, não tive oportunidade de conhece-lo como profissional. Saiu da empresa também no final de 1985.

Cavalcanti – Um grande cara. Sujeito muito simpático, tinha resposta pronta para toda situação. Foi um grande mestre.

Marcos – Meu segundo supervisor. Depois de um início difícil, conseguimos nos acertar e trabalhamos juntos 03 campanhas de listas. Grande amigo.

Antonio Carlos – Era extremamente simpático a todos. Era aquele que sem ele nenhuma festa começava.

Alexandre – Grande mestre. Aprendi muito com ele já como supervisor.

Silvio – O preferido de todos os vendedores. Ele sempre foi amigo de todos e está qualidade o credenciava a ser o supervisor mais querido por todos.

Manoel – Este fez parte da história de todos os que trabalharam com ele. Muito inteligente, tinha tiradas inesquecíveis como: pessoal, vamos discutir agora o que esta resolvido.

Falco e Sidney – Eram os gerentes da época. Ambos tinham em comum a soberba. Acreditavam que o mundo girava em torno deles

Sr. Josias, como era chamado, era o diretor geral da empresa. Tive poucas oportunidades de conversar com ele, mas nas poucas vezes, sempre foi muito solicito.

Fecuri – o famoso Kaká, uma das pessoas mais criativas e inteligente que conheci. Era ele, junto com sua equipe que dava vida aos anúncios que os vendedores faziam. Um grande amigo e merece todos os elogios
R. Souza – um negão simpático, lembrava um pouco o Martinho da Vila, era sempre uma surpresa a cada dia. As vezes chegava estourando a boca do balão e outras entrava num ostracismo, mas era um cara muito bom.
Julidori – Na época já era um dos veteranos, como nunca mais tive notícias dele, hoje se estiver bem de saúde, já deve estar na casa dos 70 anos. Era um gentleman, muito educado, bom vendedor, e sempre recordo de uma ideia dele de montar um restaurante que se chamaria “Raízes”, onde seria servido somente pratos que pudessem ser comidos com a mão, sem frescura. No lugar de talheres, seria oferecido um avental para que o cliente se sentisse completamente à vontade. Ele dizia sempre que rabada e frango só fica gostoso se comer com as mãos sem uso de talheres. Espero que ele tenha realizado seu sonho.
Herivelto – Cheguei a trabalhar algumas vezes com ele e era um vendedor dentro da média, não era de conversar muito, pelo menos tenho esta imagem dele, mas provou ser um grande empresário, quando saiu da LTN montou uma lista de telex internacional, com escritório perto do Largo São Bento e cheguei até pegar a representação, mas não deu certo. O meu tempo de listeiro já havia passado.
Altran – que conheceu não esquece dele. Era um sujeito bom, mas vivia reclamando disso, daquilo e numa ocasião, estávamos no Hotel Bourbon em Curitiba e no estacionamento do hotel ele e o Ortolani, entraram em discussão por alguma besteira e chegaram as vias de fatos e passaram trocar socos. Eu entrei no meio para apartar e consegui, mas acabei levando um soco no peito que trincou uma costela e fiquei com aquela dor por muitos dias.
Nair – sinto saudades dela. Aprendi muito com ela. Era minha parceira predileta para TJ. Na época ela era de Rio Preto e nunca mais tive notícias. Gostaria de encontrá-la.
Leda – Por muito tempo éramos apenas colegas de trabalho. Um bom dia no máximo, mas com o tempo fomos ficando amigos e uma ocasião estávamos em Araçatuba e fomos almoçar juntos num restaurante chamado Bola 7, se a memória não me trair e a comida foi servida era horrível. A Leda virou bicho. Brigou com o garçom, com o gerente e saímos sem pagar a conta.
Lucas – Era um grande vendedor, chegava no atendimento falando alto, colocando pilha. Era adorado por todos. Nunca trabalhamos junto, mas sempre teve a admiração de todos.
C.Dourado – uma grande amiga. Foi a primeira veterana a me acolher como amiga. Amizade que dura até hoje.
Ortiz – Não tive oportunidade de trabalhar com ele muitas vezes, mas sempre se mostrou um vendedor hábil e hoje um bom contador de histórias.
Augusto – Cara simpático, bom de vendas, tinha uma cabeleira “em falta”. Grande amigo.
Ribeiro – Era um dos veteranos e era cotado por todos os vendedores para ser o novo supervisor juntamente com o Mairo. Quando a diretoria escolheu eu e o Mairo ele ficou muito revoltado e não tenho recordação se ele continuou na empresa.
Vicente – Gente finíssima. Era de Barretos. Dividi apartamento com ele por diversas vezes e nunca mais tive notícias. Gostaria de saber notícias dele.
David – Grande vendedor. Ele e seu inseparável bigode era um bom amigo. Me prestou socorro uma vez na estrada, quando o meu Chevette estava quebrado.
J. Rubens – Lembro bem deste menino, pois quando ficávamos a noite na calçada da Avenida Rio Branco, defronte ao Hotel São Francisco, ele esnobava, pois era o único da turma que conseguia conversar em inglês com os turistas que estavam no mesmo hotel.
Voltando ao relato terminamos a semana na quinta feira e no final do dia durante o atendimento, foi dado o dinheiro para a viagem até Porto Alegre. Todos os vendedores deveriam estar no atendimento na próxima segunda feira, a partir das 08:00 no Hotel Embaixador. 

Destino inicial da primeira viagem

Tudo simples e sem muita frescura. Segunda feira em Porto Alegre e ponto. Porto Alegre? Ficava imaginando como seria a viagem, considerando o carro que eu tinha na época, um Chevette 1974, movido a gás de cozinha e precisava deixar dinheiro com minha esposa, pois como estava iniciando na empresa e já vinha sem dinheiro a bastante tempo, fiz um sacrifício enorme e deixei quase a metade do que havia recebido para as despesas de viagens.

Como um botijão de gás dava para rodar cerca de 200 quilômetros, com o tanque cheio de gasolina eu daria um jeito de ir comprando gás pelo caminho e com isso economizaria o valor que havia deixado com a família. Com o dinheiro contado e com o risco de ser pego pela polícia, pois era proibido na época utilizar o gás como combustível, terminei os preparativos para a viagem e finalmente, no sábado de manhã, saímos em comitiva de São Paulo, com destino a Porto Alegre. A viagem foi com a  Ângela Guerreiro, com a Soeli e com o Ruz. Esta viagem foi tão espetacular, que merece ser contada num capitulo exclusivo.

Continua na próxima semana.


Capitulo 2 – O treinamento

Depois de muita conversa e ficar todo encantado com a maciez da cama que o hotel oferecia, do primeiro banho de ducha na vida. Foi emocionante tomar aquele banho demorado, com muita água quente. A emoção deste momento foi tão intensa que consigo ainda hoje recordar aquela cena. Na época eu tinha completado 36 anos e meus banhos eram sempre de chuveiros simples e rápido para não gastar energia. Estava me sentido o rei do mundo. O Avansi também comentou comigo que teve a mesma sensação. Parece meio bobo comentar isso depois de tantos anos, mas foi importante, pois parecia que aquele banho estava tirando todo o passado, tudo que havia dado errado e preparando o corpo e a alma para uma nova vida. E foi assim que aconteceu.

Lembrança dos apartamentos do Bristol

Acordei 06 horas da manhã e mais uma super ducha, barba feita e lá vamos nós tomar o café da manhã. Acostumado com o café com pão, eventualmente com leite e manteiga, eis que me deparo com uma mesa enorme, totalmente cheia dos mais variados tipos de comidas, como pães, doces (quindim delicioso e inesquecível), frutas, sucos, presunto fatiados, queijos e vários tipos, literalmente um banquete. Nunca na vida imaginava que existia uma coisa daquela. Era muito comida e como todo bom guloso, peguei um pouco de cada coisa, como se aquela fosse a única vez na vida que iria ter esta oportunidade. Durante o café, tinha uma mesa onde estavam alguns supervisores e consigo recordar que nela estava o Manoel, o Marco Antonio, o Alexandre e o Silvio e pela primeira vez ouvi a expressão “pezinhos”.
Café da manhã no Bristol - Inesquecivel

O prédio onde funcionava a LTN era um edifício que ficava defronte ao Bristol. Era só atravessar a rua. Não era muito alto e sua entrada tinha a fachada de vidro, sendo à direita do prédio um local para estacionamento de dois ou três carros e ficava sempre com uma corrente limitando o espaço, quando não estava sendo usado pela diretoria. Pelo lado esquerdo do prédio ficava a entrada principal, onde tinha a portaria, logo depois os elevadores e mais em frente via-se a porta de uma sala. Pelo lado direito deste corredor existia uma parede que separava o hall da sala onde ficava as equipes de vendas e dos supervisores. Entrando no salão, deparava-se com uma sala muito grande com muitas mesas, onde os vendedores faziam seus trabalhos ou aguardavam a sua vez de serem atendidos pelos seus respectivos supervisores. Cada supervisor tinha sua sala, todas no mesmo estilo, feitas com divisórias e com uma identificação na porta com o nome do supervisor. Lia-se Silvio, Alexandre, Meneghetti, Morales, Jair, Marco Antonio e Cavalcanti. Na sala localizada mais ao fundo era a sala da Supervisão Chefe, onde trabalhava o Manoel e o Antonio Carlos (Tonico).

Todos os vendedores contratados naquela etapa deviam se apresentar as 08:00 horas e aguardar no salão de vendas, juntos com os vendedores que já eram funcionários para iniciar o processo de admissão e treinamento. Quando entrei no salão, meio tímido, meio assustado, fiquei surpreso com a descontração dos vendedores, mas todos eles pareciam nos ignorar completamente. Não recordo de nenhum deles vir nos cumprimentar, ou desejar boas-vindas. Ouvia-se sempre alguém falar um pouco mais alto. “Olha a quantidade de pézinhos”” Vamos ter gente para carregar nossas pastas” ”Tem carne fresca no pedaço”, e outros comentários, mas ninguém veio até nós. Conforme os vendedores eram atendidos pelos seus supervisores, eles saiam com uns pacotinhos marrons e comentavam com outro colega o que havia naquele pacote e iam embora. Em pouco tempo, só restava na sala nós e os supervisores. Ai, sim, pela primeira vez, tivemos a primeira apresentação oficial do trabalho que iriamos fazer. Foi explicado pelos supervisores chefes que iriamos ser treinados e iriamos iniciar os trabalhos em campo dentro de uns 15 dias, no Guia Brasil Telex, um guia nacional de telex, onde constavam todos os telex do Brasil, conforme publicação anual autorizada pela Embratel.
O produto mais rentável da empresa

Ficou também claro naquele primeiro encontro que após o treinamento, os vendedores seriam divididos entre as equipes, por sorteio e cada equipe iria para um determinado lugar. Aquilo era um sonho. Era tudo que eu queria e sonhava fazer. Voltar a viajar, conhecer novos lugares. Estava encantado. Depois desta explanação, tivemos também oportunidade de conhecer os gerentes Falco e Sidney e aí ficamos à disposição do Departamento Pessoal para entrega dos documentos de admissão e finalmente fomos entregues aos cuidados do nosso mentor, que cuidou muito bem de todos nós que estávamos iniciando, o Sr. Thomaz. Nunca cheguei a perguntar, mas corria o boato que o Thomaz havia sido padre e deixado a batina para se casar, mas eu nunca tive a liberdade de perguntar e este assunto ficou como contavam, mas ele era uma pessoa muito generosa. Mostrava preocupação com todos e foi nosso parceiro durante todo o treinamento.

Quando chegou minha vez de ser admitido, fui até o departamento pessoal e o Sr. Thomaz veio conversar comigo. Disse que eu tinha tido um ótimo aproveitamento nos testes admissionais e que todos os que me entrevistaram recomendaram minha contratação, mas havia uma regra na casa que não podia contratar pessoas que tivessem o nome sujo no serviço de proteção ao credito, o que era meu caso, mas que ele poderia abrir uma exceção se eu concordasse em assinar uma carta pedindo demissão, sem data, somente assinada. Fazer o que? Perguntei. Claro que assino, preciso do emprego, minha família está necessitada. Naquela hora acho que concordaria em até abrir mão de parte do salário. Depois de tudo resolvido, já de volta a sala, comecei a rir sozinho, pois eu havia sido contratado e pedido demissão no mesmo momento, mas iria trabalhar. Agora, já mais descontraído, fui conhecendo os meus colegas, entre eles recordo do Jocafe, Ângela, Soeli, Ruz, Avansi, Adão, Vera e tinha outros, que lamento não recordar neste texto.

O primeiro dia de trabalho foi todo tomado por orientações, procedimentos e oportunidades para conhecer os novos amigos. No final do dia, ficou marcado o início do curso preparatório para o dia seguinte, que aconteceria no Hotel San Raphael, localizado no Largo do Arouche. Pontualmente, estávamos todos às 08:00 e novas orientações pelo Sr. Thomaz e finalmente o início do curso com a Dona Rosinha. Durante 02 ou 03 dias aprendemos tudo sobre que significava IA, MA, NG, 1QCO, MEIA PAGINA, UMA COLUNA, LOGOTIPO COM NEGRITO, MONTAR TÍTULOS, SELINHOS, QUARTA CAPA, CONTRACAPA e inúmeros outros macetes. Confesso que aquilo me empolgava. Fazia os melhores exercícios, vendia as melhores propagandas. A Rosinha fazia tudo parecer fácil e diante do que estava sendo ensinado, eu tinha certeza que iria estourar quando estivesse em campo junto de um cliente. Na quinta feira terminamos o curso e nos apresentamos no dia seguinte no Hotel Bristol, onde tivermos reuniões que com os supervisores, gerentes e fomos apresentados a diversas pessoas e finalmente, o mais esperado, o sorteio da equipe.

Creio que tive sorte, pois fui sorteado para trabalhar com o Cavalcante. Ele era tido como um dos melhores supervisores. Pessoa de língua afiada, elogiava quando merecia, mas era duro quando o vendedor não correspondia. Foi aí que tive oportunidade de conhecer os vendedores veteranos, os famosos faixas “A”, que passavam por nós como se não existíssemos. O da minha equipe era o Agno. Vendia uma barbaridade. Bem antes de iniciar as viagens, fomos trabalhar em TJ com os vendedores veteranos, nunca os mais antigos, para aprendermos como era o trabalho no campo. Literalmente éramos um estorvo para eles. Nas vezes que fiz acompanhamento com o vendedor que me orientou, ele entrou improdutivo, consequentemente, não me ensinou nada. Depois de dois dias, o Cavalcanti me fez uma atribuição de “novos” para eu ir sozinho. A maioria das fichas estava localizada na Avenida Paulista e região. Era o fim do treinamento e o início da minha carreia na LTN.

Continua na semana que vem.











quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Capitulo 1 – Em busca de um sonho

O Natal daquele ano seria o pior de todos os tempos. Não havia dinheiro para comprar nem uma simples lembrança para as crianças que moravam junto com a mãe na cidade de Descalvado, onde para ajudar no orçamento, a Zezé,minha esposa,  ia diariamente com meus filhos, apanhar algodão numa fazenda próxima. O que ela conseguia dava para comprar o pão e o leite das crianças e o que eu contribuía, dava para pagar o aluguel e comprar alguma comida. Eu trabalhava na cidade de Sorocaba e morava nos fundos de uma lojinha de material de construção, que eu havia resolvido montar em parceria com um amigo. A expectativa do final do ano se aproximava e a situação não mudava. Não havia dinheiro e a possibilidade de consegui-lo estava cada vez mais escassa.

Quando encontrei com o Inácio há cerca de 02 anos antes, ele era um vendedor de materiais de construção da Loja Monteiro, da cidade de Sorocaba, empresa já extinta, e eu era o representante de uma empresa de concreto, a Concrebrás, daquela cidade e no relacionamento comercial surgiu a ideia de montar uma loja de material de construção, onde venderíamos produtos contra pedidos. Não tínhamos dinheiro suficiente para ter uma loja com estoque e optamos então por montar um show room com diversos tipos de azulejos, pisos, louças e metais sanitários e criamos um nome bem sugestivo para a loja, que se chamou MAGO ACABAMENTOS.

Este nome foi criado da junção dos nossos sobrenomes, Marchetti e Gonçalves e a nossa pequena loja começou a funcionar no início de 1984. A euforia da inauguração foi muito festejada por nós, afinal estávamos realizando um sonho de ter nosso próprio negócio. O barracão onde montamos a empresa tinha uma estrutura bem simples, um espaço de 10 metros de largura, 20 metros de comprimento, 02 banheiros, piso de cimento e no fundo um pequeno quintal. Antes de nós, naquele local funcionava uma oficina mecânica. Nos fundos da loja, montamos um escritório, com uma mesa, um cofre, um arquivo, um sofá para atender os eventuais clientes. Com o passar dos dias, este local passou a ser minha casa.A noite eu guardava o meu chevette dentro da loja e dormia no sofá do escritório. Para as refeições, tinha um pequeno fogão e pelo tempo que a loja existiu a refeição predileta era sopão e polentina, pois além de ser mais fácil cozinhar, era o que eu sabia fazer.

Como todo início de projeto, todos os sonhos são grandiosos, mas a realidade nem sempre acompanha os devaneios dos sonhadores. Temos que fazer uma reforma no prédio, colocar piso, pintar as paredes, colocar expositores chamativos. Esta era a nossa conversa do dia a dia e o nosso desejo era realiza-los, à medida que as vendas fossem prosperando e o dinheiro sobrando, que na verdade nunca aconteceu. Quando fazíamos alguma venda, o processo era emitir o pedido, fazer uma nota fiscal da compra e ir numa financeira trocar a dita nota e com o dinheiro comprar o material vendido para entregar ao cliente. Era literalmente vender o almoço para comer a janta. Esta rotina foi se repetindo pelos meses de 1984 e nada de novo acontecia, mas de repente, as coisas começaram a mudar.

Conseguirmos fechar a venda de pisos para um prédio de apartamentos e como o volume era grande para o nosso cacife, conseguimos comprar direto o piso da fábrica Giotoku. Com a liberação do credito, aproveitamos e compramos um pequeno estoque, que na nossa opinião seria o início do nosso projeto de finalmente ter uma loja, mas o sonho foi uma bola de sabão; explodiu assim que foi criada. No dia seguinte à chegada do estoque de piso em nossa lojinha, eu estava na cidade visitando clientes, quando o Inácio me ligou dizendo que havia feito um excelente negócio, pois tinha vendido com um bom lucro todo o piso que havíamos recebido e que o cliente já havia carregado e que fizera o pagamento com cheque. Não deu outra. O cheque não tinha fundos e nunca conseguimos localizar o emitente e perdemos tudo. Não demorou que a dívida que tínhamos com a fábrica virou o motivo de começarmos a perder tudo e a firma acabou falindo.

Bateu o desespero. Não tinha dinheiro para comprar material, os fornecedores já não aceitavam os nossos cheques e o nosso estoque havia evaporado, a solução encontrada foi começar a procurar emprego e foi aí que a LTN entrou em minha vida. A semana havia sido desastrosa. Não havia acontecido nenhuma venda e para piorar o quadro, um pouco de dinheiro que restava, teve que ser usado para consertar o carro do Inácio. Ao terminar o trabalho no sábado à tarde, tinha no caixa o dinheiro suficiente para comprar um botijão de gás para abastecer meu carro, comprar uns pacotes de sopão e comprar o “Estadão”, jornal onde era, na época, publicado os anúncios de empregos. 

Passei quase todo o domingo selecionando classificados e entre eles, tinha dois que estavam dentro do meu perfil: a LTN e a IOB. O anuncio da IOB oferecia uma possibilidade de ganho imediato – era o que precisava – e a LTN oferecia tudo que eu não tinha, ou seja, comida, gasolina e um lugar para dormir e vinha de encontro ao meu desejo maior que era ter um emprego que me permitisse viajar. Parecia perfeito, tinha que dar certo!

Na segunda feira, logo pela manhã, liguei para a LTN e fui muito bem atendido e já marcaram uma entrevista para o dia seguinte na Rua Martins Fontes, 230, no centro da cidade de São Paulo. Embora eu já tivesse alguma experiência em vendas, sempre tive minhas atividades profissionais voltadas para um público diferente, pois vendia material de construção para o consumidor final e meus clientes, na sua grande maioria era formada por pessoas humildes e era dentro desta simplicidade que eu vivia. Nunca tinha usado um terno para trabalhar e preocupação com roupas, sapatos, unhas e cabelos não eram as minhas prioridades. Da mesma maneira que eu visitava obras, fui a entrevista na LTN. Me recordo que na ocasião estava utilizando um sapato surrado, calça jeans meia vida e camisa de manga curta e ao chegar no prédio onde funcionava a editora, o primeiro susto: Eu era um estranho no ninho. Parecia a porta de uma igreja evangélica de hoje. Os homens de ternos, gravatas, pastas estilo 007 e as mulheres todas de roupas sociais. Creio que havia mais de 50 pessoas para serem entrevistadas. Não posso afirmar, pois estava muito nervoso, mas creio que era o único que não estava devidamente trajado para uma entrevista de emprego, mas já era tarde para recuar. Já que estava lá, vamos ver o que poderia acontecer.

O primeiro passo da entrevista foi o preenchimento da ficha de informações pessoais, experiências profissionais e todo o procedimento burocrático de praxe. Isto aconteceu no período da manhã e a tarde retornamos para as entrevistas e testes psicotécnicos, não recordo de todos, mas neste dia tive contato pela primeira vez com o Sr. Thomaz, com o Manoel, com o Falco, com o Sidney, com a Ana Maria e com outros entrevistadores, que eram os supervisores da época. Foram várias entrevistas e no final do dia, o Thomaz agradece a nossa presença e promete dar uma resposta ais candidatos escolhidos até a próxima sexta feira, pois o treinamento para as pessoas escolhidas iria ter seu início na segunda feira seguinte. Confesso que sai dali ansioso, mas frustrado, pois queria ter a certeza que seria contratado e com esta incerteza, voltei para a minha rotina em Sorocaba.

Na quarta-feira, dois dias depois de ter feito os testes eu estava no meu limite. Já não tinha dinheiro nem para comprar comida, não tinha gás para o carro e estava sem nenhuma saída e resolvi ligar para a LTN. Era tudo ou nada. Se fosse nada, estava decidido voltar para Descalvado e trabalhar no que fosse possível para sobreviver, mas não ficaria mais em Sorocaba. Já havíamos decidido que iriamos fechar a loja e devolver o prédio e o prazo de encerramento do contrato de locação era naquela semana. Estava literalmente no meu limite. Se a LTN me aceitasse, então eu iria ficar até domingo na minha casa, em Descalvado, com minha família, para poder me apresentar em São Paulo para iniciar o curso. Usando o telefone emprestado da transportadora, vizinha de nossa lojinha,pois o nosso já estava cortado, fiz a ligação e falei com o Departamento Pessoal, que disseram que ainda estavam analisando os candidatos e que não tinham ainda definição. Argumentei com a pessoa que me atendeu que estava ansioso pelo resultado e que esperava ser aproveitado, pois havia gostado muito da empresa e que a contratação seria um sonho para mim. Parece que meu apelo surtiu efeito, pois a pessoa pediu que eu ligasse dentro de 02 horas e ela daria uma posição final.
Praça Dom José Gaspar, onde começou a LTN

Foram 02 horas de agonia e quando ligo novamente a pessoa que havia me atendido estava em horário de almoço. Pediram para retornar a ligação mais tarde e quando o fiz novamente, fui atendido pelo Sr. Thomaz, que conversou um pouco comigo e disse que iria verificar para eu aguardar uns instantes. Estas ligações eram um grande problema para mim, pois na época os telefonemas interurbanos eram feitos por aquelas fichas de orelhão, ou então você quando terminava a ligação, a Telesp informava o custo da ligação e eu teria que pagar ao meu vizinho. Estava agoniado com a espera e com o custo da ligação, quando o Thomaz voltou a linha e disse que eu havia sido aprovado no processo de seleção e que devia me apresentar na segunda feira para iniciar o curso. Como eu morava fora de São Paulo, eu poderia chegar no domingo e me hospedar no Hotel Bristol, que ficava defronte a LTN.

Naquele mesmo dia deixei tudo para trás em Sorocaba e fui para Descalvado contar as boas novas para a família. Não tinha ideia de qual seria o desafio, que tipo de trabalho seria realmente realizado, nem quanto iria ganhar. Contei para minha família que nossa vida iria mudar e era isso o que importava. A Zezé arrumou umas roupas para eu poder levar e passar a semana e finalmente no domingo à tarde, emprestei dinheiro de parentes e tomei um ônibus para São Paulo e cheguei no hotel por volta de 19 horas. Quando entrei no saguão do hotel fiquei encantado. Eu nunca tinha entrado num ambiente como aquele e já na portaria conheci o primeiro amigo na LTN, que estava chegando no hotel naquele mesmo momento, era Irineu Vilella Avansi, que estava chegando de Andradina. Estava finalmente no lugar que iria mudar minha vida para sempre.