quinta-feira, 15 de outubro de 2020

VIAGENS PARA DESBRAVAR O BRASIL PARA O HERMES PARDINI - A AMAZONIA E SUAS BELEZAS -

AMAZONIA – UM MUNDO VERDE. UM MUNDO DE SONHOS E FANTASIAS.


Vitória Régia -  Simbolo da Região Amazônica


Trabalhei no Instituto Hermes Pardini por 10 anos. Neste tempo todo passei viajando por todo o Brasil, divulgando o nome da empresa nos mais distantes rincões deste imenso pais. Fui do Oiapoque ao Chui e de 1996 a 2006, foram feitas parcerias com mais de 9000 laboratórios, que enviavam diariamente cerca de 25.000 amostras de pacientes para serem analisadas em Belo Horizonte. Foram milhares de quilometros percorridos em quase todas as estradas existentes, inúmeras viagens aéreas e algumas de navio. Algumas historias destas viagens já publiquei anteriormente, mas o fascínio que o nome Hermes Pardini provoca no leitores, me motivou a escrever uma boa historia sobre o maior estado brasileiro, a Amazonas e suas belezas.

Nesta publicação pretendo contar sobre minha viagem de carro à Boa Vista e Santa Helena na Venezuela, sobre as belezas de Manaus, a maravilha do encontro dos rios Solimões e Negro, quando começam verdadeiramente o Rio Amazonas, a descida de barco por este gigante até Belém, além de visitas nas cidades de Parintins, Óbidos, Oriximiná, Santarém, Belem e Macapá, 

Teatro Amazonas - Simbolo da cidade de Manaus


Tudo tem um inicio e meu trabalho na região norte começou por Manaus. Já conhecia a cidade de uma outra ocasião quando trabalhava para uma empresa de lista telefônica, mas agora a missão era outra. Implantar um escritório de apoio para atender os clientes locais do Hermes Pardini.  Esta era a pior parte do projeto, pois embora tínhamos clientes espalhados por todo o Brasil, a empresa Pardini, não era tão conhecida como hoje e tinha muitos concorrentes disputando o mesmo mercado. Via de regra eu trabalhava da seguinte maneira. Ainda em Belo Horizonte, antes de iniciar uma viagem para uma região desconhecida, procurava fazer contato com algum cliente ativo e combinava que iria despachar para eles material de trabalho, que eu pegaria tão logo chegasse. Aproveitava também este subterfúgio para descobrir possíveis funcionários e quase sempre dava certo.

Chegando a Manaus, me instalei num hotel proximo a Zona Franca e aluguei um carro para visitar os laboratórios da cidade e como nada conhecia, passei o primeiro dia mapeando a cidade, marcando o roteiro que pretendia fazer, mas o mais importante passo era contratar o representante que iria dar sequencia nos trabalhos quando eu partisse.

Quando tudo estava planejado iniciei as visitas aos laboratórios, mas nas duas primeiras não obtive exito no quesito indicação, embora ficasse contente com a chegada do Hermes Pardini na cidade. Na terceira visita, fui visitar o Laboratório Benzecry e fui  muito bem recebido pela proprietária, Dra. Andreia e durante nossa conversa, ela sugeriu que eu conhecesse seu irmão Samuel, que tinha experiência em vendas e estava desempregado no momento. Concordei em conhece-lo e marcamos um encontro para logo mais a tarde e quando ele chegou notei de imediato que ele tinha o perfil de pessoa que eu precisava. Acertamos os detalhes e ele foi contratado para ser o nosso representante, função que exerceu por mais de 10 anos com muito cuidado e responsabilidade.

Porto de Manaus - Movimento intenso todos os dias

Manaus, para quem ainda não teve oportunidade de conhecer é uma grande cidade, moderna. com um enorme parque industrial, um comércio forte devido a Zona Franca e também devido a industria do turismo. Situado à margem esquerda do Rio Negro, fica distante do Rio Amazonas uns 15 quilometros. Por ser uma cidade distante de outras capitais, só se chegava, na epoca, de avião ou de barco ou navio de porte médio. Hoje com a construção de uma ponte sobre o Rio Negro, já é possível, visto que o governo esta asfaltando, chegar a Porto Velho por terra e dali tem caminhos para todo o Brasil. Quando lá estive pela ultima vez, em meados de 2005, havia somente rodovia até a divisa com a Venezuela e para Itacoatiara.

Ponte sobre o Rio Negro que permite acesso a Porto Velho por terra.

Sempre tinha alguma novidade quando ia a Manaus. Certa ocasião a cidade estava sofrendo muito com as queimadas, tanto que quando o avião se aproximava da pista de pouso, somente a poucos metros do chão foi possível ver a vegetação em torno do aeroporto. A fumaça era tanta que conversando com um dos tripulantes da aeronave ele disse que naquelas condições, o pouso somente poderia ocorrer por instrumentos, pois não se enxergava nada da cabine da aeronave.

Também, devido as queimadas, a energia elétrica da cidade, que era fornecida por usinas movidas à óleo e com isso havia um racionamento em toda cidade. No hotel que eu estava hospedado a força era desligada às 9:00 horas e religadas às 17:00 horas. Eu, nesta viagem, fiquei por lá uns 20 dias.

Num final de semana, minha esposa veio me visitar, pois estava fora de casa à quase 03 meses e enquanto eu saia para trabalhar, ela ia passear nas lojas da Zona Franca e numa vez, ela resolveu jogar no bicho. Apostou R$ 5,00 no Pavão e para sua surpresa, a tarde, quando passou no cambista, soube que havia ganhado R$ 100,00. Vocês nem  podem imaginar a alegria dela. Sorte de principiante, pois até aquele dia nunca havia jogado.

Encontro das águas do Rio Negro com o Solimões - Inicio do Rio Amazonas


O final de semana foi muito agitado. O Samuel tinha arrumado com um guia canoeiro, um passeio pelo Rio Negro até o encontro com o Rio Solimões, dando inicio ao Rio Amazonas. Foi um passeio inesquecível, pois além de chegarmos bem no meio dos rios, onde as águas não se misturam, tivemos oportunidade de conhecer as vazantes dos rios, chamados de “parana”, onde moram muitos ribeirinhos. Depois, fomos levados por dentro da floresta, por caminhos que o guia conhecia, até um restaurante instalado num tablado flutuante em um grande lago. Foi servido uma das melhores refeições de peixe que se podia esperar. Rodizio de tucunaré, tambaqui e pirarucu e muita cerveja.

Peixes das mais variadas especies. Esta é a culinária local


Voltamos para Manaus no final do dia e já tínhamos um programa legal para o  dia seguinte: iriamos subir o Rio Negro num barco de 18 metros, pertencente ao um parente do Samuel. Foi inesquecível fazer um churrasco numa praia deserta de areias brancas na companhia de mais 30 pessoas. Junto com o barco, o parente da Samuel levou também uma lancha e um jet ski e foi a primeira e ultima vez que tive oportunidade de dirigir uma lancha, por pouco tempo, e dar uma volta de jet sky.

Voltamos para Manaus já no começo da noite e chegamos cansados no hotel, mas ainda sobrou tempo para tomar um tacacá, uma iguaria deliciosa, feita com goma de mandioca, tucupi, jambu e camarão. No dia seguinte, minha esposa voltou para São Paulo e eu fiquei trabalhando mais uns dias com o Samuel. Estávamos na Semana Santa. Eu iria na sequencia para Belém e como teria uns dias de feriado, resolvi abrir mão da viagem aérea e ir de barco, viagem que demoraria 05 dias.

Comprei um camarote neste navio e o preço era muito barato considerando o tempo de viagem, com refeições inclusas. Não tive a curiosidade de conhecer o navio antes da partida e quando cheguei no porto, notei que se tratava de um catamarã, todo de ferro, com uns 50 metros de comprimento e uns 15 metros de altura. O Samuel me ajudou a levar a bagagem até o camarote e ai notei que haviam apenas dois apartamentos para passageiros do lado direito do navio e dois do lado esquerdo. Eu ocupei um deles e uma familia ocupou o outro. Esta familia fez um trecho curto, somente até Parintins. Do outro lado, os camarotes eram utilizados pela tripulação. Por outro lado, em dois pavimentos abaixo do plano onde estavam os camarotes e a sala de comando do navio, haviam mais de 700 pessoas, todas em redes.

Era uma cena chocante e me senti muito mal em ver aquilo. Eu usando um apartamento com cama espaçosa, ar condicionado e logo abaixo, 700 pessoas em rede, sofrendo com o calor, chuva e com a falta de higiene, pois os banheiros eram imundos. Mas era muito barato. Não tenho idéia da epoca, mas se colocarmos no valor de hoje, eu teria pago pelo camarote por 05 dias, com refeições inclusas um valor semelhante a R$ 450,00, enquanto os que viajavam na rede estariam pagando um valor equivalente a R$ 150,00.

Na calmaria do gigante, milhares de quilometros de água e florestas


Na cobertura, quase ao lado dos camarotes, funcionava uma lanchonete e lá era o encontro do pessoal. Com o calor intenso, o consumo de cerveja era bem alto e fiquei muito amigo da tripulação, depois de pagar algumas duzias de cervejas para  eles. A viagem é linda e recomendo a todos um dia, se puderem que a façam. O Rio Amazonas é magico. Tem lugares que ele tão largo, que não se consegue enxergar a outra margem e tem um trecho, que ele fica estreito, perto de 02 quilometros de largura, mas neste ponto, perto da cidade de Óbidos, a profundidade, chega a mais de 1500 metros.

A primeira escala foi na cidade de Parintins, a capital brasileira do Festival do Boi. A parada ali foi rápida. Cerca de duas horas, mas foi o suficiente para conhecer rapidamente uma pedacinho da cidade, onde prevalece, nas casas, as cores vermelha ou azul, dependendo de que time o morador é torcedor. Se do Boi Garantido (vermelho) ou do Boi Caprichoso (azul). Todo ano, ali é realizado um festival, que se assemelha muito com o Carnaval do Rio de Janeiro, onde existe a disputa do melhor desfile entre as duas agremiações.

Seguindo a viagem, outro detalhe que me chamou a atenção foi o carregamento de açaí. Em pontos já previamente combinados, o navio toca uma sirene e reduz a velocidade da embarcação. Nisso, pessoas manobrando canoas apenas no remo, se aproximam do navio, que não para, se amarram ao barco por cordas e transferem balaios cheios da fruta. Quando a operação termina, eles se soltam do navio e voltam para suas casas, todas casebres, à beira do Rio Amazonas, cercadas de arvores por todos os lados.  Este procedimento de se repetiu por diversas vezes durante a viagem e acontecia inclusive durante a noite. Quando o navio aportou em Belém havia mais de 100 balaios de açaí.

Outra cena que ficou gravada na memória foram as crianças dos ribeirinhos. Pilotando uma pequena canoa, meninos e meninas, alguns com idade aparente de 05 anos, iam de encontro ao navio e ficavam acenado para os passageiros jogarem coisas para eles. Parece que já era um costume estabelecido, pois eram atirados dezenas de sacos plásticos, uns com roupa, outros com comida e ai se notava a pericia daquelas crianças em manobrar suas canoas para recolher os pacotes lançados.

Visto do alto, o Rio Amazonas em alguns trechos é um enorme emaranhado.

A viagem que durou 05 dias, teve muitos momentos inesquecíveis, mas não posso deixar de relatar a parada do navio em Santarem. Ali ficamos parado por umas 05 horas, tempo necessário para o navio ser carregado com uma enorme carga de peixes, Dentro do navio havia uma grande câmara frigorifica e os peixes eram retirados de caminhões estacionados num plano mais alto e jogados diretos para o navio através de uma rampa feita especialmente para isso. Não consigo imaginar a quantidade de peixes e tamanhos que  foram embarcados, mas eram muito peixes. Mas o que me chamou mais a atenção foi o que vi no Porto de Santarém: uma floresta de madeira cortada (mogno), embalada, pronta para ser embarcada para a Europa. Podem imaginar uma  linha de uns 150 metros de comprimento, por uns 05 metros de altura e 05 de largura. Bem este era o volume de madeira que estava a espera de um navio para ser enviado para algum pais europeu. Fiquei indignado com a cena, mas creio que a mesma se repete até os dias de hoje.

Milhares de árvores são transportadas pelos rios da região


Para completar a viagem, até a chegada à Belém, tenho que relatar como era servido as refeições. A comida era igual para todos, tripulação e passageiros. Eram servidos num grande salão em horários previamente agendados. Café da manhã, almoço e jantar. Mas o diferente era o tratamento. Dentro do salão, havia uma pequena sala, toda fechada com vidro e com ar condicionado. Ali é que era servido as refeições para a tripulação e para mim, o único passageiro que viajava nos camarotes. Os outros passageiros também eram servidos, mas em mesas colocadas ao longo do salão, sujeitos às intempéries do tempo.

Esta viagem foi inesquecível, mas teve outra com muita mais emoção, quando resolvemos ir a Boa Vista de carro, abrindo mão da passagem aerea, que tínhamos direito.

Nesta  viagem eu já tinha o escritório montado e uma secretária eficiente que ajudava o Samuel na coleta dos exames. Eu estava programado para fazer a viagem até Boa Vista de avião, mas pelo espirito de aventura, resolvi faze-la de carro. O Samuel tinha um chevette e combinamos que iriamos sair cedo para chegar ao entardecer na capital do Acre.

Iniciamos a viagem por volta de 09 horas e ao chegar na primeira cidade, Presidente Médici, resolvemos não abastecer, contando que íamos encontrar postos de combustíveis pela estrada. Seguimos a viagem tranquilos até a chegada de uma reserva índia, controlada pelo Exercito. Fomos parados e instruídos que não poderíamos parar em parte alguma da estrada dentro da reserva, pois corria risco de ser atacados pelos índios que lá habitavam. Não havia socorro, não havia nada. Era acelerar e atravessar os 160 quilometros de estrada sem nenhuma parada. Normalmente, você percorre uma distancia desta em uma hora e pouco, mas dentro da floresta é diferente. Primeiro, devido a quantidade e altura das árvores, tivemos que fazer toda a viagem de farol ligado. Não tinha espaço para o Sol jogar sua luz na estrada, salvo em pequenos trechos. Mata fechada o trecho todo. Não vimos uma alma viva siquer, nem índio, nem bichos. Mas durante a travessia, que durou quase 02 horas, o coração batia acelerado.

Quando terminamos a travessia da reserva, tinha um pequeno posto de gasolina, mas sem gasolina. Era apenas um posto. Não tinha nada. Compramos um refrigerante e tivemos a informação que a 120 quilometros à frente tinha um posto de gasolina. Nesta altura, o odômetro marcava meio tanque e ainda faltava mais de 400 quilometros para chegar. O combustivel iria acabar antes. Seguimos viagem, atravessamos a Linha do Equador e quando chegamos no tal posto, para nossa decepção e preocupação, também não havia gasolina para vender. Ainda restava uns 300 quilometros para chegar e pouco mais que um quarto de gasolina. Ai começou realmente a aventura. Começamos atravessar dezenas de igarapés, todos, literalmente todos, com as pontes quebradas. Cada uma delas tinha um jeito de atravessar, até passando pelo igarapé, com a água chegando no assoalho do carro, mas o que mais preocupava ainda era o combustivel. Estava acabando.

Na viagem para Boa Vista passamos pelo marco que indica a linha do Equador


Começamos a dirigir em ponto morto. Acelerava o carro até ganhar velocidade e ai jogava ponto morto e deixava ir até quase parar e depois acelerava novamente. Uma hora fiz um teste e desliguei o motor e rodamos um longo trecho com o carro desligado e passamos a trabalhar desta maneira, mas mesmo assim, o combustivel estava acabando. De repente, acende a luz de reserva  e ainda faltava uns 80 quilometros para Boa Vista. Tinha começado a chover e ficar escuro. O movimento na estrada era minimo, de vez em quando cruzava um caminhão, mas era muito pequeno o movimento. Já estavamos conformados com a idéia de ter que dormir no carro, quando do nada,  aparece uma luzinha. Era um posto de gasolina. Chegamos lá praticamente com 100 ml de combustivel no tanque. Foi um presente da Deus.

Só de imaginar dormir a noite ao relento, em plena Floresta Amazônica, já é bem complicado, agora se realmente tivesse acontecido, hoje, certamente, estaria contando uma historia de terror. Chegamos em Boa Vista por volta de 19:00 horas. Lamentei muito ter vindo de carro. Poderia até voltar de avião e deixar o Samuel voltar sozinho, mas ai seria muita sacanagem.

Trabalhamos quatro dias em Boa Vista, contratamos uma vendedora, visitamos todos os laboratórios da cidade e retornamos a Manaus. Enchemos o tanque e pelos cálculos, daria para chegar em Presidente Figueiredo. Lá colocaríamos combustivel novamente e dava para  chegar com folga  a Manaus. Só que quem quer voltar para casa, sempre anda um pouco mais depressa. Essa parece ser a regra. Foi o que aconteceu. Voltamos um pouco mais depressa e não deu outra. A 15 quilometros de Presidente Figueiredo a gasolina acabou. Paramos no acostamos e o Samuel pegou uma carona e foi até a cidade buscar combustivel. Por conta disso chegamos em Manaus já bem a noite.

O duelo dos bois Garantido e Caprichosos tornaram Parintins um centro turístico nacional


Manaus sempre me trás grandes recordações, mas não posso deixar de contar a beleza que é o Festival dos Bois Centro de Convenções de Manaus, o encontro entre os grupos folcloricos Caprichoso e Garantido. É como uma disputa de final de campeonato brasileiro. Arquibancadas lotadas, os Caprichosos, vestidos de azul e o time do Garantido de vermelho, a cor que o Samuel usava tocando um enorme bumbo. Tudo isso regado a cerveja gelada e muita alegria, afinal, nem tudo era trabalho.




quarta-feira, 23 de setembro de 2020

BELÉM E O CÍRIO DE NAZARÉ

Belem - Uma das maravilhas do Brasil
Mercado Ver o Peso - Belem


Uma das maiores festas religiosas do Brasil, talvez a maior, este ano não acontecerá nos moldes tradicionais. Pela segunda vez desde que foi criado em 1793, o Círio de Nazaré em função da pandemia causada pelo Coronavírus, não será celebrado nos moldes dos anteriores. O Círio de Nazaré é uma manifestação religiosa cristã em devoção a Nossa Senhora de Nazaré, que ocorre na cidade de Belém, capital do Para, em Macapá,capital do Amapá e em Rio Branco, capital do Acre. Esta festa é celebrada anualmente desde 1793, no segundo domingo de outubro e chega a reunir cerca de dois milhões de pessoas em todas as romarias e procissões, inclusive a procissão dos barcos. Segundo os historiadores, esta devoção religiosa foi herdada dos colonizadores português. Esta tradição foi importada de Portugal, onde este evento é comemorado no dia 08 de setembro. 

Segundo ainda os historiadores, no Brasil, no inicio era uma romaria vespertina e até mesmo noturna, daí o uso de velas. No ano de 1854, para evitar a repetição da chuva torrencial que havia caído no ano anterior, a procissão passou a ser realizada pela manhã.

Uma pena que este ano não teremos esta festa, que já tem o calendário das festividades definidos e publicado nas redes sociais e nos principais jornais do Brasil, mas sempre o objetivo é nobre: evitar aglomerações para não aumentar os casos de Covid 19, mas mesmo assim o povo paraense aguarda com muita ansiedade este momento. Eu estive em certa ocasião participando do Círio de Nazaré e vou relatar o que vi nas linhas abaixo. È um espetáculo inesquecível.

Além da festa religiosa, das procissões de barcos, procissões terrestre, tem a procissão da corda, talvez a maior demonstração de fé que o homem pode oferecer.  Não existe palavras para definir o esforço dispendido para acompanhar a procissão das cordas, mas contarei em detalhes mais abaixo, mas tem também as maravilhas da culinária paraense, que nesta data comemoram o evento com o tradicional Pato no Tucupi, com a Maniçoba e outras delicias. Vale a pena conhecer e participar.

 

Círio de Nazaré - A maior manifestação de fé do Brasil

Cyrio de Nazaré – A maior demonstração de fé do povo paraense

Minha viagem foi num barco com esse - 05 dias de duração


Minha chegada à Belem, depois de 05 dias a bordo de um navio da Enasa, já tinha sido o suficiente. Um detalhe interessante é que ao longo dos mais de 2000 quilometros que a viagem teve, a paisagem permaneceu inalterada. Água e arvores. Com exceção nas paradas nas cidades de Parintins, Óbidos, Oriximiná, Santarem e a chegada em Belem, o resto do caminho era tudo exatamente igual. O tempo passava devagar. De vez em quando ia a cabine de comando e perguntava para o navegador como estava indo a viagem e ele me mostrava os mapas de navegação, o sonar de profundidade e o avanço do navio. Em média, uns 30 quilometros por hora, pois estavamos a favor da correnteza. Para fazer o caminho inverso, a viagem dura 06 dias ou mais, dependendo da força da água.

Quando encontrei com a vendedora Ana Maria, que gentilmente veio me buscar no porto, já havia uma grande historia por trás deste momento. Eu sempre optei por viajar de carro. Só utilizava outro meio de transporte quando  era impossivel ir por estrada. E numa destas andanças cheguei a Belém do Pará. Era meu ultimo desafio antes de iniciar a região Amazônica, embora Belém seja banhada por um mar de água doce, que é a Bacia do Guajará, onde desembocam os Rios Guamá e Acara. Eu sempre pensei que aquela água era do Rio Amazonas. Foi no navio que aprendi esta lição de geografia, pois quando chega na cidade de Breves, onde começa a Ilha do Marajó,  existe um desvio do Rio Amazonas em forma de Y e o rio segue pelo lado esquerdo e o Estreito de Breves à direita, chegado suas águas na Bacia de Guajará.

Estreito de Breves - Entrada para a Baia da Guajaras

Belém é uma cidade encantadora. Mas longe! Tinha trabalhado nas cidades de Recife, João Pessoa, Natal, Mossoró, Fortaleza, Teresina, São Luiz e finalmente havia chegado a Belém. Eu e meu Gol vermelho, que chegou a rodar mais de 300.000 quilometros sem problema de motor.

Quando Belém começou surgir à minha frente, eu já tinha rodado desde minha saída de casa mais de 4.000 quilometros, após passar a entrada de Mosqueiro, um lugar exótico e imperdível, que contarei em detalhes mais à frente, a pista passou a ser mão dupla e em ambos os lados da estrada já existia um comercio ativo e mais à frente a cidade de Ananindeua, que fica colada à Belém e esta mesma estrada me jogou numa avenida e dali até o centro da cidade. Era uma questão de hábito. Quando eu chegava numa cidade pela primeira vez, minha primeira parada sempre era o centro da cidade. Lá eu procurava por informação de hotel, me localizava e ai começava a ver realmente onde estava.

Minha primeira morada em /Belem

O hotel mais barato, dentro do padrão que costumava ficar era proximo a Estação Rodoviária. Hotel simples, mas bem localizado e bom atendimento. Primeira etapa do projeto estava pronta. Já estava em Belém, estava hospedado, já tinha jantado e fui dormir. O grande desafio começaria no dia seguinte: encontrar, contratar, treinar um representante para aquela grande cidade.

O Laboratório Pardini já era bem conhecido nesta epoca e tínhamos muitos clientes que enviavam suas amostras direto para Belo Horizonte via Sedex. Era precário este serviço, mas era o que tinha. Com a contratação de um representante, todos os laboratórios enviariam mais amostras e elas seguiriam em voo noturno, chegando na empresa na manha do dia seguinte, com resultado das analises dois dias depois, dependendo do tipo de exame.

Mas onde encontrar uma pessoa responsável para fazer este serviço com eficiência depois que eu fosse embora? Comecei pelo obvio. Perguntando aos donos dos laboratórios que já eram nossos clientes se tinham alguém para indicar. Depois de alguns não, me indicaram uma vendedora muito conhecida por todos, de nome Maurícia, que vendia reagentes para os laboratórios. Bem, era um começo. Liguei para Maurícia e marcamos um encontro. Encontrei com uma mulher pequena, bem magrinha, mas mostrava muita disposição e conhecimento do mercado. Achei que poderia dar certo, mas antes de enviar a documentação para admissão, resolvi trabalhar uns 03 dias com ela para ver se seria a contratação certa. Foi talvez a decisão mais acertada que fiz durante todo o tempo que trabalhei no Pardini.

Ela tinha muitos compromissos, devido as suas representações e não estava dando a atenção ao projeto Pardini da maneira que eu realmente precisava. Eu precisava ter alguém comprometido até a alma com a idéia, pois o serviço assim exigia e Belém era muito longe para ir a todo momento. Na manhã do terceiro dia, disse para a Maurícia que não ia dar certo e que eu não iria contrata-la. Acho que ela já esperava por isso. Imediatamente, ela disse que tinha uma amiga que estava desempregada e que eu iria gostar. Ela com certeza seria a pessoa certa para o que eu precisava.

Ana Maria e seu filho Lucas na epoca que trabalhamos juntos


Combinamos encontrar sua amiga no seu apartamento. Lá conheci a mãe dela, tomei um litro de água super gelada para combater o calor daquela cidade e ficamos aguardando a chegada da amiga. Pontualmente, às 14 horas, como combinado, eis que chega a Ana Maria. Uma morena tipica paraense, cabelos curtos e ainda tímida, começamos a conversar, mas a empatia foi instantânea. Eu tinha certeza que tinha encontrado a pessoa certa. Nossa conversa durou menos que 20 minutos e já defini que ela seria a representante. Pegamos o material de trabalho que estava na casa da Maurícia, e levamos o apartamento que a Ana Maria morava. Lá tive oportunidade de conhecer seu filho Lucas, um garoto de 06 anos, muito esperto, que ficou meu amigo de imediato. Hoje, ele já é advogado e com projeto de fazer doutorado em Portugal e já tem um escritório montado na capital paraense;. Conheci também a mãe da Ana, Dona Cecilda, que estava muito doente na epoca. Já não andava. Permanecia o tempo todo deitada ou em cadeira de rodas. Era uma mulher muito bacana, conversávamos muito, mas infelizmente a doença fazia a vida da Ana Maria ser muito sofrida. Conheci também seus irmãos Celinho, Celso, Cezio e a Ângela. Em resumo, fiquei muito amigo da familia, amizade que durou por todo o tempo que trabalhamos juntos. Depois que eu sai da empresa a Ana continuou e chegou ao cargo de supervisora de equipe, ficando responsável por toda a Região Norte. Foi uma das contratações mais acertadas que fiz em toda minha carreira profissional, pois além da excelente vendedora, que dominou completamente o mercado, tornou-se minha grande amiga. E é essa amizade que me levou a conhecer o lado magico da cidade de Belém.

Produto caraterístico da região de Mosqueiro - diversas fabricas


Mosqueiro é uma ilha fluvial do Rio Pará,  vilarejo localizado nas cercanias de Belém e um lugar muito visitado. Ali é fabricado a famosa Cerâmica Marajoara. Vasos ornamentais, com figuras tipicas, que ressaltam suas belezas por serem todas feitas de forma artesanal. Lá existem dezenas de lojinhas e dentro delas é um mundo de variedades, onde você encontra tudo para decoração, desde um simples prato, até um sofisticado jogo de panelas para servir feijoada.

Os restaurantes,  todos a beira da Baia do Guajará, onde existe uma grande praia, e é característico destes estabelecimentos servirem como prato principal a tradicional peixada. Um caldeirão enorme de barro, com diversos pedaços de peixe de excelente sabor, ovos cozidos e uma verdura que não conhecia até minha primeira ida a este lugar. O jambu, uma  hortaliça muito parecida com o agrião, que quando você a mastiga, sua boca fica anestesiada. Uma sensação estranha, mas deliciosa.

Peixada com Jambu e molho de Tucupi


Por diversas vezes, estive em Mosqueiro com a Ana Maria, onde ela tinha uma pequena casa, que estava lutando para vender e nesta vila, aos finais de semana, era festa direto. Milhares de pessoas, musicas ao vivo em vários lugares. Lembrava as praias do litoral de São Paulo na epoca do verão ou feriados prolongados. O detalhe que é praia de água doce e não causa a mesma emoção de uma praia de água salgada. Ai, o paraense não se faz de rogado, viaja mais uns quilometros e chega na Praia de Salinas, um dos lugares mais bonitos do litoral brasileiro,

Engraçado, que num lugar tão quente e distante da grande colonia japonesa no Brasil, é muito fácil encontrar restaurantes que tem como prato principal o Yakisoba. Um prato feito com macarrão fino, legumes e shoyo. Em Belem você encontra este prato em diversos restaurantes.

Outro lugar imperdível que conheci em companhia da Ana foi o Mercado Ver o Peso. Ali é um mundo único. Não deve ter outro lugar na terra com as mesma variedades de produtos. Lá você encontra de tudo. Desde peixes a benzedeiras que prometem curar qualquer doença, resolver problemas de dinheiro, etc.

Junto ao Mercado Ver o Peso, tem o Antigo Porto de Belém, todo reformado, espaço que na epoca que lá estive já havia se transformado num boulevard, com diversos restaurantes e outras atrações. Me recordo que havia uma ponte rolante, que percorria toda a extensão do porto, uns 300 metros, e dentro dela, lá no alto, ia um musico, tocando e cantando musicas para alegrar o ambiente.

Dentro do Mercado Ver o Peso é possível de tudo da região


Nesta viagem que eu estava chegando de Manaus por barco, eu já havia deixado o meu carro na casa da Ana Maria e logo após meu desembarque, me hospedei, e fomos visitar os laboratórios. Os paraenses são de longe um dos povos mais hospitaleiros do Brasil. Fazem tudo que podem para te deixar a vontade e cada visita era uma conversa de amigos que não se viam a muitos anos. Difícil terminar uma visita em menos de uma hora. Alguns donos de laboratório eu já conhecia de congressos, outros fui apresentado pela Ana, mas em todos os lugares, o atendimento era excelente.

Visitando um laboratório numa das avenidas da cidade, se a memoria não me trai, era o Laboratório Amaral, deixamos o carro quase defronte à empresa e eu deixei minha pasta no banco de trás. Quando voltamos, tínhamos sido roubados. O ladrão entrou pela porta do porta malas do Gol e levou minha pasta, minha maquina fotográfica com as fotos da viagem pelo Rio Amazonas, o radio do carro e uma sacola com alguns objetos da Ana Maria. Para minha sorte, estava com a carteira no bolso, o que me evitou um monte de dor de cabeça. Ela ainda me levou a conhecer um restaurante cuja proprietária sobreviveu a queda do avião da Varig em plena selva amazônica, onde morreram praticamente todos os ocupantes e apenas alguns se salvaram, entre eles, esta senhora. Outro lado inesquecível de Belém era o final do dia. Ana tinha muitos amigos e sempre a tarde se encontravam num barzinho da cidade para um gostoso bate papo, regado da inigualável cerveja Cerpinha.

A Ana Maria, no tempo que trabalhou comigo foi sempre impecável como profissional e nas vezes que ia visita-la, sempre foi uma grande amiga, a quem devo grandes favores e agradeço nesta postagem.  Mas tem dois episódios que não posso deixar de relatar, pois a historia não ficaria completa.

Eu precisava colocar um representante em Macapá, que ficaria subordinado a Ana Maria. Eu como havia curtido muito a viagem de barco de Manaus para Belém, disse para a Ana comprar dois camarotes num navio que iria para Marabá. Assim ela fez. Quando embarcamos, o navio era completamente diferente do que eu havia viajado. Era todo de madeira, muito barulhento, com o pessoal pendurado nas redes e os camarotes era feitos para pessoas normais. Eu pesava na epoca uns 140 quilos. Mal cabia na cama. Era muito apertado. Mesmo a Ana, no outro camarote, também não conseguia se ajeitar para dormir, pois o barco balançava muito. Resolvemos então subir para o deck do navio e ver televisão. No inicio, estava indo tudo bem,  mas do nada começou cair uma tempestade muito forte. Não dava para voltar para as cabines, pois ventava muito e o barco balançava demais. O jeito foi ficar sentado onde estavamos, com o coração na mão, torcendo para a tormenta passar. Estávamos margeando a Ilha de Marajó e esta chuva durou horas para parar. Chegamos no Porto de Santana em Macapá, mortos de cansaço,  com sono e com muita fome. Ficamos por lá uns 03 dias, contratamos um representante e voltamos de avião. Minha recomendação a quem um dia querer viajar de navio naquelas regiões. Conheça o navio antes de comprar o bilhete. Se for navio de madeira, sai fora.

Procissão da corda - Precisa de muita força para segurar-se nela.


Deixei para o final a parte que envolve o titulo desta publicação: Círio de Nazaré.  Trata-se com certeza da maior profissão de fé em todo o Brasil. A veneração a Nossa Senhora de Nazaré é algo que impressiona, que comove e nos transporta para um mundo de paz e esperança, que atinge a todos, sem exceção.

Ana Maria conseguiu ingressos para fossemos na procissão naval. Um cortejo com mais de 1000 embarcações, que seguem um barco que levava a imagem da Santa até um local onde foi rezada um missa. No navio que estavamos, havia umas 300 pessoas e durante todo o percurso, tanto na ida como na volta, haviam grupos rezando em louvor à santa. Esta procissão aconteceu num sabado. No domingo haveria a grande procissão do Círio de Nazaré, onde a santa é levada de volta para sua igreja. O que chama atenção e causa angustia em quem esta assistindo é a devoção dos fiéis, que seguem o cortejo segurando uma enorme corda, de uns 10 cm de diâmetro por uns 500 metros de comprimento, com os rostos colados uns nos outros, num esforço supremo para não soltar a mão da corda, pois se assim o fizer, outros entrarão em seu lugar. Uma demonstração de fé, amor e devoção.

Terminada a procissão, fomos almoçar na casa de um amigo e tive oportunidade de saborear o prato mais cobiçado pelos paraense: Pato no Tucupi, acompanhando de Maniçoba, uma comida feita a base de mandioca brava, de cor verde, que eles adoram, mas que não fez o meu gosto.

Foram muitas historias vividas em Belém. Lamento não ter voltado mais àquela cidade maravilhosa, de povo hospitaleiro, nestes últimos 18 anos. Muitas saudades de Belém, onde se planta arvores frutíferas em suas principais avenidas. Normal, nas épocas da colheitas, a queda de mangas nos carros estacionados  sob a sombras das mangueiras e da loucura pelo açaí, que lá é vendido em cada esquina.

Ana e Lucas nos dias de hoje


Espero um dia poder voltar. Mas se este dia não chegar,  pode ter certeza que guardo cada momento vivido neste rincão do Brasil, da minha amiga Ana Maria e de seu filho Lucas, hoje já doutor, que na epoca me chamava de “Tio Luis”.

 



quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A PANDEMIA E A DEPRESSÃO

Estado de depressão - Um perigo silencioso que pode matar

Tenho pensado muito neste assunto nos últimos dias. Desde o mês de março quando ficou oficializado que o mundo vivia uma pandemia causada pelo Coronavírus COVID-19, o desencontro de informações foi constante. O que podia ontem não pode hoje e talvez amanhã possa poder novamente. Foram tantas ordens e contraordens que hoje fica a pergunta: que estava certo? O que podemos afirmar com toda certeza que o final da historia, com certeza será marcado como uma das maiores tragédias da humanidade, com milhares de pessoas mortas, milhares de famílias destruídas, empresas falidas, trabalhadores desempregados e a economia em declínio.

 A quem culpar? Não creio que chegaremos a um consenso de apontar um culpado, mas podemos afirmar que esta pandemia desencadeou outra doença, esta tão silenciosa como o Covid 19, que é a depressão. A depressão já uma velha conhecida da humanidade, já levou milhares de pessoas à morte e infelizmente ainda continuará levando e como podemos classificar a depressão e saber mais sobre ela. 

Embora seja apenas um curioso, procurei pesquisar o tema e neste artigo, pretendo esclarecer alguns tópicos, mas numa linguagem simples, sem termos científicos, apenas mostrar o quanto grave é esta doença e como ela esta tão próxima do nosso cotidiano. A depressão é uma das principais doenças desta época em que vivemos, e atinge pessoas de todas as idades, classes sociais e estilo de vida. Apesar de muito mais conhecida atualmente, ainda é muito comum que pessoas não levam a sério quadros depressivos, que podem se agravar sem o cuidado necessário. Muitas vezes ela se manifesta por algum fator especifico na vida da pessoa, como uma crise financeira, perda de um emprego, ou perda de um ente querido. Hoje, com o advento da pandemia, estas têm sido as principais causas de depressão. Elas podem começar a se manifestar de uma forma branda, como oscilações de humor, de sono, de falta de entusiasmo para realizar atividades do dia a dia, como exercitar ou mesmo cozinhar. Mas também podem se manifestar pela perda de apetite, falta de energia, falta de concentração, pensamentos e sensações muito negativos. 

A depressão é uma ‘permanente’, imutável e longa tristeza. A tristeza da depressão não termina, ela é constante. É a sensação de estar sempre ‘para baixo’ explica o psicólogo Alexander Bez. Uma pessoa em estado de depressão avançada, perde toda a vontade de viver e produzir, como se a doença sugasse todas as energias e vontade, levando a pessoa a um estado de privação total, com postura de isolamento social, onde o individuo vai se afastando de tudo e de todos. Em resumo, a pessoa perde literalmente o interesse pela vida e daí para o suicídio é um pequeno passo. 

Cena do filme Beleza Oculta

Esta semana, a propósito do tema que estou escrevendo, vi o filme Beleza Oculta, que discorre de uma maneira brilhante o quanto um processo de depressão pode afetar uma pessoa. O filme conta a historia de Howard, personagem do Will Smith que entra em depressão após a morte de sua filha. Howard é dono de uma agencia de publicidade junto com mais três sócios, Claire (Kate Winslet), Simon (Michael Peña) e Whit (Edward Norton). Foram dois anos difíceis, Howard se afasta de agencia e de seus amigos, não vê mais sentido na vida, nada mais tem importância, existe uma falta de iniciativa, está apático e imerso no vazio depressivo. A depressão na perspectiva psicanalítica freudiana é o resultado de um processo psíquico de natureza tópica, dinâmica e econômica, cujos elementos variam de conformidade com a estrutura psíquica a que o fenômeno depressivo pertence. Quando a agencia já não tem o mesmo ritmo, os sócios fazem de tudo para manter a agencia funcionando, mas tudo parece afundar com a falta do sócio principal, ao ponto deles chegarem a conclusão que o melhor é vender a empresa e fazer um plano para trazer Howard de volta a vida. Howard, imerso no seu mundo, começa a escrever cartas para o Amor, a Morte e o Tempo culpando-os pela morte de sua filha. O amor, embora estivesse presente em sua filha, na sua voz, no seu sorriso, nas brincadeiras, não foi suficiente para mantê-la vida e com ele. O tempo, sempre tão presente e supostamente duradouro, não permitiu que ela pudesse aproveita-lo. A morte foi cruel, afastando - o definitivamente de sua filha. 

No filme, os sócios contratam um detetive que o segue e consegue recuperar as cartas e de posse delas, eles contratam três atores de teatro para interpretarem o personagem AMOR, MORTE E TEMPO, e numa trama sensacional do roteirista e do diretor do filme, eles conseguem resgatar o personagem Howard de volta a vida. A beleza do filme é que mostra que a individualidade de cada sócio, cada um tinha um problema muito sério, que também os deixavam deprimidos. O que tudo que escrevi acima tem a ver com a pandemia que estamos vivendo? Tudo. Já imaginaram o estado de depressão que se encontra um pai que não consegue ganhar para comprar comida para os filhos, a mulher que não pode trabalhar, pois não tem como deixar os filhos numa creche, a família que perdeu entes queridos de forma repentina fruta de uma doença que surgiu há poucos meses e ceifou a vida de milhões de pessoas em todo mundo e infelizmente, ainda continua. Como no filme, onde o ator principal cedeu aos sentimentos de frustração, apatia, falta de sentido na vida, o tédio, mas contou com ajuda dos amigos para conseguir voltar a vida. É importante nestas situações contar com uma rede de apoio de pessoas próximas que possam mostrar o lado positivo da vida, ajudando a sair do estado depressivo que se encontra. 

Claro que a depressão exige acompanhamento médico, mas outros tratamentos alternativos também contribuem para a melhora da pessoa deprimida. Na pandemia da Covid-19, entre outras coisas, dois fatos foram constatados: o aumento de doenças emocionais e da procura por musica para se distrair, pois ouvir musica ajuda se sentirem melhores. Os benefícios da música para a saúde mental são inúmeros. “Dependendo do ritmo, a pessoa consegue equilibrar as sensações provocadas pelo descontrole que o estresse, a depressão e a ansiedade causam. A música realinha as ondas cerebrais. Isto quer dizer que, mesmo que haja algum descontrole emocional momentâneo, a música puxa para ela a frequência das ondas, elevando a experiência do ritmo ressoado e, por consequência, instala a resposta comportamental organizada.
 
Musica - Um dos melhore remédios para combater a depressão

A música é a melhor companhia que podemos ter. Ela promove equilíbrio, acalma ou agita, proporciona bem-estar, traz harmonia, mexe com nosso corpo e mente; pode ajudar a concentração ou nos distrair. Nunca em um ambiente com música você se sentirá sozinho, então, se solte, dance, cante e, com certeza, a solidão ficará um pouco mais distante. A música preenche tanto o vazio do ambiente quanto o interno.” Explica Anaclaudia Zani Ramos, psicóloga e neurocientista criadora do método InLuc, e pesquisadora na área de Neurociência e Desenvolvimento Humano. 

Portanto, mesmo diante de tantos fatos que vem acontecendo, dê amor a sua vida. Procure ajuda logo que sentir que alguma coisa mudou e não se envergonhe em pedir ajuda. A depressão é uma doença, diria até que é uma doença social e para cura-la, é indispensável ter apoio da família, dos amigos e de grupos especializados, alem de acompanhamento médico. Não perca esta luta para esta doença. Ela já causou muito estrago em milhares de famílias. Poupe a sua!