quarta-feira, 10 de março de 2021

MACEIÓ - O CARIBE BRASILEIRO

                 

\PRAIA DA PONTA VERDE

             Trabalhei muitos anos viajando pelo Brasil e tive, felizmente, oportunidade de conhecer o país de ponta a ponta e em cada lugar que passei, além de deixar amigos, levei um pouco da alma do lugar, que  agora se transformam em doces recordações. Neste “blog” já publiquei diversas viagens em belos lugares, mas nada se compara a capital de Alagoas, a incrível Maceió, um paraíso que todo brasileiro deveria conhecer.

           Um pouco da cidade. Maceió, capital do estado de Alagoas, conta, de acordo com o IBGE é a décima quarta capital brasileira em número de habitantes, com mais de um milhão de moradores. A temperatura média anual oscila entre 25 a 29 graus centígrados é um convite para a visitação de turistas durante o ano todo.


JANGADAS EM PAJUÇARA

             
              Suas belezas naturais atraem turistas o ano todo e nas inúmeras vezes que estive por lá, tive oportunidades de visitar diversos pontos turísticos, como os que mostro abaixo:

AEROPORTO ZUMBI DOS PALMARES


                  Para dar um melhor atendimento ao turista, foi inaugurado em setembro de 2005 o Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares. Um dos mais modernos do Brasil e chegando à cidade, vai encontrar uma vasta rede de hotéis, desde a Praia de Pajuçara até Jatiúca.

PRAIA DO FRANCES

                 A primeira vez que estive em Maceió, em 1986, o primeiro ponto turístico que fui conhecer foi a Praia do Frances. Este local esta, situado, a cerca de 20 quilômetros do centro de Maceió e é um dos lugares mais belos a serem visitados. Uma praia de areia muito branca, tendo a frente um banco de coral, que formam uma imensa piscina, que permite aos turistas um calmo e refrescante banho de mar. Diz a lenda urbana, que o nome do lugar se deu quando a chegada de navios franceses, que usavam aquele lugar como ponto de entrada no estado. 

    

PAJUÇARA - PISCINAS NATURAIS

            No centro da cidade, esta localizada a Praia de Pajuçara. O seu maior atrativo não é a praia propriamente, pois o mar naquela região é calmo, sem ondas e com isso permite aos jangadeiros levarem turistas até um ponto localizado a uns dois quilômetros da praia, onde um grande banco de coral, com a maré baixa, formam uma grande piscina. Ali, num dia de muito sol, se reúnem dezenas de jangadas, uma montada com sistema de som, outras com bar e permanecem por ali por horas, até que a maré começa a subir. Lugar imperdível para se visitar.    

  

LITERALMENTE UM MAR DE BELEZAS

         Uns quilômetros à frente, começa a Ponta Verde. Uma praia de águas calmas, com muita vegetação flutuando, dai o nome. Neste local é o "point" da cidade, com inúmeras barracas à beira-mar, onde se encontra desde um coco verde, até um sofisticado prato de lagosta ou camarão. Muita música e alegria no local. Nesta região estão localizados diversos hotéis, categoria 05 estrelas, que merecem ser conhecidos.

PRAIA DE JATIÚCA - MAR ABERTO MARAVILHOSO


            Para fechar esta frente de mar, tem a Praia de Jatiúca. Local de mar aberto, muito frequentado pelos turistas e amantes do “surf”. Um lugar belíssimo. Em resumo, Maceió, somente na parte central, desde a Praia de Pajuçara até Jatiúca, oferece inumeras atrações, excelentes restaurantes, onde se destaca a carne de sol.

ENCONTRO DAS ÁGUAS DO RIO SÃO MIGUEL COM O MAR

              Dois lugares que turista algum pode deixar de visitar, além dos citados acima, é a Barra do Rio São Miguel, à cerca de 40 quilômetros de Maceió e a Lagoa do Mundaú, que além de oferecer aos turistas passeios de escunas, oferece também um gama de opções culinárias nos diversos restaurantes montados à sua margem.


LAGOA  DO MUNDAÚ - PASSEIO IMPERDÍVEL


                    As praias de Maceió são lindas, o povo é muito hospitaleiro e um sem dúvida um dos melhores pontos turísticos para se vistar por isso ela é reconhecida com o "Caribe Brasileiro"


                                




quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Realizar um sonho: escrever um livro.

        


        Creio que a maioria já pensou em escrever um livro, mesmo que seja para ficar guardado na estante da sua casa e quem sabe um dia alguém possa ler. Escrever um livro considerado um "Êxitos de vendas" é uma fantasia gostosa de imaginar, mas a realidade é diferente. Não importa o assunto a ser explorado, fazer os seus escritos chegar a milhares de pessoas, sem apoio da mídia e de um grande projeto de “marketing” é praticamente impossível  tornar-se conhecido.

        Resolvi topar o desafio. Não de me tornar conhecido e nem de escrever um livro que seria de cabeceira de milhares de pessoas. Fiz algo mais simples; escrevi um livro, que será lançado brevemente contando historias de minha família, dos meus empregos, dos meus amigos e o resultado ficou bom.

        Vou ser otimista e acreditar que em algum canto deste Brasil imenso, que foi palco do meu trabalho e base do meu livro, alguém irá compra-lo, talvez por achar a capa bonita ou apenas por comprar para conhecer. Não importa o motivo. Os poucos, creio que serão poucos, que chegarem a adquirir este livro que ainda não estou com título definido conhecerão um pouco mais do mundo das vendas e dos vendedores. 

Em breve, publicarei mais detalhes. A foto é a que será usada na capa do livro, mas o titulo ainda pode ser mudado. 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A MÁGIA DAS VENDAS

 




Nos últimos 35 anos de minha vida sempre trabalhei com algum tipo de vendas. Minha primeira experiência aconteceu quando ainda era garoto, talvez uns 12 ou 13 anos e consegui um emprego para trabalhar num bar de uma estação ferroviária com um tabuleiro para vender doces e biscoitos  aos passageiros de trem. Era engraçado a gritaria, “Olha o biscoito, olha a rosquinha de leite” e eramos em vários moleques e durante o dia, atendíamos diversos trem. Foi o inicio de tudo.

Apenas uma foto lembrança para ilustrar o tema.

Tempos depois, encontrei dois irmãos que estavam vendendo um tecido chamado JK bordado. Era uma venda contra pedido.  A gente levava o mostruário e visitava as donas de casa das cidades da região. Era normal vender cerca de 10 pedidos por dia, mas o inesquecível era o almoço: todo dia, pão, mortadela e guaraná.

Ai, o tempo de venda cessou, entrei para trabalhar no almoxarifado de um construtora e lá permaneci por 04 anos. Quando deixei esta empresa, meu pai conseguiu, através de um amigo, um emprego numa empresa de representação de tecidos e confecções de cama, mesa e banho, na cidade de São Paulo para atender o Estado de São Paulo e parte de Minas Gerais.
 
Eram dezenas de mostruários
Todo orgulhoso do meu feito, cheguei em casa vindo de São Paulo com duas enormes malas de mostruário, com diversos tipos de tecido, como tergal, gabardine, tricoline, popeline e até o mais famoso deles o linho york street, além de amostras de toalhas de mesas, toalhas de banho, roupão de banho, lenções de casal, de solteiro, de bebê, enfim, uma infinidade de produtos e como estava começando e não tinha experiência, me recordo até hoje da primeira venda,que aconteceu numa pequena loja de armarinhos.  Eu entrei na loja de armarinhos todo suado, pois não tinha carro ainda e comecei a mostrar a mercadoria de qualquer maneira, sem saber o que era uma coisa ou outra e talvez para me ajudar, esta primeira cliente, comprou de mim, alguns jogos de toalhas, uma compra pequena, mas que rendeu uma primeira lição, que levei para a vida toda:

Conhecer seu produto e a necessidade do seu cliente é fundamental para a realização de uma venda.

Foi importante para minha vida, a partir deste dia me preparar para visitar um cliente. Inicialmente por que as malas pesavam muito, segundo por que não tinha carro e terceiro, o que eu estava oferecendo nem sempre interessava ao cliente.

Comecei então, a me espelhar nos outros vendedores da empresa, que faziam o planejamento do trabalho a ser feito no dia, na semana e no mês e comecei a imita-los e as vendas começaram acontecer. Se eu planejasse visitar lojas de tecidos, eu separava mostruários que serviriam para aquele cliente e assim fui evoluindo e meu serviço foi deslanchando.

Planejar o trabalho, visitar o cliente certo com o produto certo é que todos vendedores devem fazer.

A partir de então, passei a me relacionar melhor com os clientes e fui criando uma carteira de clientes fidelizados, que todo mês compravam de mim e assim, minha experiencia como vendedor de tecido e confecções foi meu primeiro passo na carreira que escolhi para mim. Ainda tinha muito que aprender e embora estivesse com uma boa quantidade de vendas, aprendi uma dura lição, que me fez repensar a profissão:

Prometer e não cumprir é perder o cliente para sempre. É fundamental cumprir o que ficou combinado, dentro do prazo combinado.

Vou esclarecer o exemplo acima. Quando vendia tecido, fiz uma grande venda para uma industria de camisas. Era a minha maior venda, mas para meu desencanto, a fabrica não aceitou o pedido, pois já havia vendido um pedido maior que o meu para outro cliente e não tinha condição de produzir mais.  Nunca mais este cliente me atendeu. E com isso, minha carreira nesta área se encerrou.

Um mercado fantastico, cheios de desafios.

Tempos depois, já mais maduro, fui trabalhar num outro segmento: concreto usinado. Neste mercado, na epoca, havia muita duvida da sua utilização, pois quando um cliente contratava uma construtora ou mesmo um empreiteiro, o serviço de fazer o concreto na obra já estava incluso no preço da obra. Foi preciso desenvolver uma outra lição:

A missão do vendedor é atingir plenamente a necessidade do comprador e para isso ele precisa ter argumentos fortes e convincentes para fazer o comprador mudar sua forma de enxergar a situação.

Não se constrói nenhum imóvel sem o uso do concreto, portanto, este material é indispensável em qualquer obra. Mas embora isto seja uma realidade, os compradores ficavam relutantes em pensar que estavam pagando duas vezes pelo mesmo produto. Ai entrava a argumentação que o produto usinado era de melhor qualidade, que o empreiteiro ou a construtora poderia oferecer um desconto e assim a venda se concretizava. Hoje a realidade é diferente e o concreto usinado passou a ser obrigatório em qualquer construção, mas quando comecei, era tudo muito difícil, mas desenvolvi muito a técnica do convencimento.

Vou citar uma frase de Katherine Barchetti, que deve estar gravado na memoria de qualquer pessoa que pretende ser ou já é vendedor:

Não faça uma venda. Conquiste um cliente.

Iniciei um novo desafio na minha carreira; me tornei vendedor de publicidade em lista telefônica. Neste segmento, você vende apenas sonho. O cliente, via de regra, não esta esperando a sua visita e você chega, explica rapidamente o que esta fazendo, o cliente, muitas vezes sem entender bem o que esta comprando, assina um contrato de publicidade e seu anuncio vai aparecer no catalogo telefônico daí a alguns meses. Foi a maior escola de vendas, pois diariamente visitava 10 a 15 clientes que nunca tinha visto e cada um havia uma abordagem diferente e depois disso, nunca mais encontrava este cliente, pois o trabalho era muito dinâmico. Era cada dia  numa cidade por todo o Brasil. Milhares de visitas, milhares de não e centenas de sim. E vem mais uma lição:

O vendedor tem que ser persistente, ambicioso, não se deixar abater pelo fracasso de receber um não e estar sempre pronto e otimista para enfrentar um novo cliente, quantas vezes for necessário, até atingir a sua meta estabelecida.

Numa nova etapa da minha carreira, passei a condição de supervisor e nesta função, minha missão era orientar os vendedores, estabelecer metas, ajuda-los nas vendas. Foi como olhar do outro lado espelho. Eu percebia neles os erros que eu havia cometido e em reuniões semanais, trocávamos experiencias e a cada semana, nosso trabalho crescia, nos levando a liderança.

A função do líder é dar tranquilidade e confiança a sua equipe para que eles realizem suas tarefas com prazer e determinação.

Por 05 longos e inesquecíveis anos neste mercado, me deu base gerencial para um novo desafio; mercado de analises clinicas. Por ser um mercado técnico, o obvio que um gerente deveria ser alguém também técnico, mas tem uma verdade, que é minha:

Um vendedor pode vender qualquer serviço ou produto, mas um especialista nem sempre poderá realizar a tarefa do vendedor.


Analises clinicas: um mercado técnico 

Tinha um desafio. Uma missão: montar uma equipe de vendas em todo território brasileiro com a proposta de ter como cliente todos os laboratórios de analises clinicas e hospitais do Brasil. Tarefa quase impossivel, mas ao longo de 10 anos, consegui, junto com minha valiosa equipe de mais de 100 excepcionais vendedores, atingir 70% do mercado, tudo graças a fatores indispensáveis para o sucesso de qualquer empresa:

Planejamento, objetivos, suporte técnico e financeiro, capacidade de suportar crescimento de demanda e ter fidelização do cliente, oferecendo sempre a ele o melhor serviço, o melhor atendimento.

O tema Vendas é emocionante e em poucas linhas é quase impossivel descrever tudo que esta profissão fantástica oferece, mas hoje com a tecnologia do lado, ela pode ter-se tornado um pouco mais impessoal, mas isto obriga o vendedor a se preparar mais para os desafios que a vida moderna impõe.

Um pensamento para refletir,

O único meio de evitar erros é adquirindo experiencias, mas a única maneira de adquirir experiencia é cometendo erros- (Lair Ribeiro)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

A CRISE DE NATAL

 


A CRISE DE NATAL

Era a semana antes do Natal. O primeiro a perceber foi um dos duendes do setor de pesquisa. Ele saiu da sala, carregando um notebook, um monte de papel impresso e gritando:



– Reunião!!! Todo mundo para a sala de reunião!!!!

Não era fora do comum àquela confusão na fábrica do Papai Noel, ainda mais na reta final. Por onde se olhasse, duendes carregavam materiais, brinquedos que não passavam no teste de qualidade, cartas que chegaram atrasadas, ração extra para as renas, e outras urgências para o grande dia.

Mas essa correria era diferente. O duende da pesquisa sentou na sala de reunião, ligou o notebook no projetor e já estava deitando números antes mesmo dos duendes responsáveis por outras áreas chegarem. O duende do setor administrativo acalmou o pesquisador:

– Calma, deixa todo mundo chegar?

Aí, entraram pela porta da sala de reuniões os duendes da contabilidade, do marketing, do RH, do financeiro, do comercial, do atendimento, da produção? Foram se colocando ao longo da mesa de reunião. Claro que a ausência do Papai Noel, o presidente em pessoa, foi sentida. Mas o pesquisador já tratou de dizer:

– Eu avisei o Papai Noel, mandei e-mail, mas ele falou que não era para se preocupar!! Como?  É terrível! É calamitoso! É desastroso! É catastrófico!

– Chega, controle-se! O duende do marketing mandou um olhar severo para o desesperado empregado? o que pode ser tão ruim?

– O ICPN caiu para menos de 50%!

Nem bem o duende terminou a frase, os demais entraram em polvorosa. Veja bem, o ICPN é o Índice de Crença no Papai Noel, o indicador que determina quantas pessoas no mundo ainda acredita no bom velhinho e que faz a fábrica de brinquedos continuar em funcionamento. Claro, já houve períodos de baixa, mas nunca para menos da metade das pessoas do mundo. Isso sim era preocupante.

O duende do administrativo tentou colocar a reunião no rumo e começou a estabelecer uma pauta:

– Mas como isso aconteceu? Como pudermos deixar isso passar?

– As crianças estão crescendo muito rápido. É a internet? Interferiu o duende do atendimento? Vocês sabiam que existem 20 comunidades? Eu odeio o Papai Noel? Antigamente era bom? Até podia ter uma criança ou outra que não acreditasse, mas era mais difícil espalhar para as outras. Hoje elas entram na Internet e ficam se falando, direto!

– Mas e esses pais que trabalham fora de casa quase o dia inteiro? Interveio o responsável pelo RH? Eles trabalham, ficam loucos para ter sucesso nos escritórios e esquecem-se do Natal. Pior, fazem os filhos esquecerem também!

– Eu falei para vocês ano passado: a gente tinha que investir na imagem do Papai Noel, fazer a cara dele aparecer na mídia não só no Natal? Colocou o gerente de marketing.

– Como se pudéssemos investir muito em promoção! O duende do financeiro atropelava? A criançada hoje em dia só quer brinquedos eletrônicos! Playstation, computador. Vocês sabem quantos pedidos de celulares recebemos este ano? Isso tudo é caro para produzir, não sobra verba?

– Controle de danos, rapazes? Interrompeu de novo o administrativo? o que podemos fazer para reverter isso nessa semana ainda? Quero respostas hoje depois do almoço.

Os duendes passaram o resto da manhã rabiscando alternativas. A queda do ICPN foi o assunto no refeitório durante o almoço. Todos estavam muito receosos, pois as perspectivas de emprego no Polo Norte não eram boas se não trabalhassem lá. Mas o Papai Noel não demitiria ninguém, demitiria? Mas então, por que ele não apareceu para dar satisfações para esclarecer tudo?

Os diretores até se perguntavam isso, mas não tinham muito tempo para tanto, estavam preocupados com os planos. Após o almoço, o diretor administrativo tomou a frente da reunião de vez (até sentou na cadeira do chefe) e pediu para que os departamentos apresentassem os projetos. O marketing começou:

– Como todos sabem, uma empresa prospera com a busca e conquista de novos mercados. Estamos em um mercado consolidado, o atendemos com excelência, e devemos expandir. Acho que está na hora de partirmos para os maus meninos.

– O quê! Você está louco? Pode parar! As reações variavam, mas eram todas negativas.

– Senhores, os meninos maus são um grande mercado. Já se foi à época em que ser bonzinho era o objetivo dessa criançada. Eles competem desde cedo, para virarem adultos competitivos. Não podemos fingir que não vemos.

Os duendes recusaram a proposta do marketing. Mais algumas ideias foram recusadas, por serem igualmente absurdas ou impossíveis. O marketing, não querendo desistir da glória de resolver o problema, chamou a agência de publicidade.

O executivo da agência começou:

– Vocês têm um problema de imagem. O trenó, renas, roupa vermelha larga, barba branca que nem algodão, tudo muito legal, serviu bem, mas isso ficou lá atrás, é coisa do passado. Precisamos de um novo conceito em Papai Noel. Um Papai Noel extremo!

– Extremo? Os duendes se entreolharam.

– Sim. Esse novo Papai Noel vai ter atitude. O trenó dele vai ser substituído por um carro envenenado, de preferência um carro que vire um robô gigante, sabe? Isso seria ótimo. A roupa precisa mudar também, talvez umas botas de salto, calças pretas de couro e jaqueta motociclista, com um Ray-Ban bem transado.

Os duendes estavam meio na dúvida, mas a exposição da agência era muito boa. O executivo não deu trégua:

– E ele tem que emagrecer. Essa imagem de gordinho não funciona mais, ele passa a impressão de ocioso, preguiçoso. Como as crianças vão acreditar que alguém tão grande viaja o mundo inteiro à meia-noite? O nome vai mudar também; Papai Noel? Não é nada extremo. Ele vai ser chamado só de Noel. Um nome só é moderno, tipo Ronaldinho, Gisele, Britney. Isso sim é extremo, atual, campeão de vendas.

Os duendes pareceram gostar da ideia, talvez pelo desespero de encontrar uma solução. O duende do marketing soltou aquele sorrisinho de vitória que fazia os outros pegar bronca dele (e ele já até imaginava campanhas para meninos maus no ano seguinte). Porém, a secretária do Papai Noel entrou na sala assim que eles estavam prontos para aprovar a campanha:

– O Papai Noel mandou todo mundo voltar ao trabalho e não mexer em nada na programação.

A indignação tomou a sala. Como pode o Papai Noel ficar quieto? 50% de queda no ICPN!!! Estaria ele ficando senil? Será que alguma empresa multinacional estava comprando a fábrica do Papai Noel e levando para o México? Será que Papai Noel estava falindo?

A semana foi passando, e os duendes mais nervosos ficavam. O Papai Noel evitava o assunto, não respondia e-mails que falassem da situação, e o Natal já estava próximo. Os duendes chegaram a fazer reuniões secretas para tentar resolver algo, mas não achavam justo fazer as coisas pelas costas do chefe.

Enfim, chegou o dia D: véspera de Natal. O duende da pesquisa saiu mais uma vez correndo da sala, com todo aquele material de novo. Os duendes esperavam o pior, já imaginavam que o Papai Noel nem precisaria sair com o trenó, já que à essa altura não sobraria ninguém que acreditasse. A sala de reunião dessa vez ficou cheia, e vários duendes ficaram do lado de fora, ouvindo e repassando o que seria discutido:

– O ICPN!

– O que aconteceu, o que o setor de pesquisa levantou? Perguntou o administrativo.

– Subiu! Está em 100%!

Os duendes ficaram doidos. Pulavam de alegria pelos corredores, comemoravam, estouravam champanhe, enchiam a cara de doce. Os porquês e como não importavam, tinham que deixar tudo pronto para a grande noite.

Mas nem o duende da pesquisa saberia dizer como o índice voltou para 100%. Ele saiu do trabalho no dia 23 com o índice ainda baixo e voltou no dia 24 com ele no máximo. Como é da característica de qualquer profissional de pesquisa (e esse duende era bem metódico), ele não queria ficar sem uma resposta.

Às 23h30min, quando o Papai Noel se preparava para a grande viagem, os duendes se reuniram em torno dele e o pesquisador tomou a palavra:

– Papai Noel, como o senhor sabia que o índice voltaria para os 100% na última hora? O senhor não deixou a gente fazer nada para mudar a situação, como o senhor podia ter tanta certeza?



– Meus amigos? Disse Noel enquanto abotoava o paletó? Deixe-me contar uma coisa para vocês: por mais difícil que seja o ano, por mais confuso que esteja o mundo, por mais que as pessoas pareçam se odiar na rua, por mais que os pais gastem mais tempo em carreiras do que em famílias, durante pelo menos um dia do ano eles se permitem acreditar no Natal, acreditar em algo melhor, acreditar que tudo vai ser resolvido no ano seguinte. Um dia é pouco? Pode até ser, mas enquanto pudermos manter as pessoas acreditando no Natal e no Papai Noel, vamos trabalhando para que um dia esse sentimento bom, essa alegria de estar com as pessoas que gosta, esse respeito pelo próximo dure o ano todo.

Depois desse dia, os duendes nunca mais fizeram reuniões de emergência, nunca mais andaram nervosos pelos corredores, nunca mais se importaram com o ICPN; só se preocuparam em fazer as pessoas felizes no dia de Natal. E isso era mais que o bastante.


domingo, 1 de novembro de 2020

A TERCEIRA IDADE

A terceira idade O que é a terceira idade? Todo dia a gente vê no noticiário da televisão, na internet e em outras mídias noticias sobre idosos e a terceira idade. Qual é o limite e critério para avaliar se já chegamos lá? Idade? Saúde? Preparo físico? Disposição? Aposentadoria? São tantas situações, que é difícil mensurar qual a que melhor se encaixa, mas tem uma que aconteceu comigo, que foi a pá de cal nas minhas duvidas? Em dezembro de 2016, passei pela pericia do INPS, após 05 anos de tratamento, o médico que me atendeu, com quatro ou cinco palavras, todas monossílabas, pegou uma fita métrica e mediu a circunferência da minha perna e sem dizer nada voltou para o computador e começou a digitar alguma informação. Minutos depois, ainda em estado de silencio total, ele imprime um papel e me entrega e diz: A partir de agora você esta aposentado. Tenha um bom dia! Simples assim! Fui para um consulta, ansioso como todo mundo que depende do salário de afastamento que o INPS paga e sai de lá aposentado por invalidez, o que me impede de exercer qualquer atividade formal remunerada. Como já tinha completado 65 anos e meu tempo de contribuição também estava perto de permitir que eu pudesse pedir a aposentadoria por tempo de trabalho, fui aconselhado a não fazê-lo, pois teria uma queda no rendimento. Pronto, a partir de janeiro de 2017 passei a viver a vida de aposentado, morando numa casa situada num bairro rural, a beira de uma represa e a vida foi passando, cada vez mais devagar. Passava e ainda passo a maior parte do tempo a procura de algo para fazer, para ocupar o tempo, mas a idade conspira e as oportunidades (as que valem a pena) são raras e praticamente não existem chances de concorrer, tanto pela idade como pelo sistema de aposentadoria e assim o tempo vai passando. De vez em quando escrevo algum texto, mas nem sempre publico, às vezes faço um desenho, outra faço um pequeno conserto, instalo uma tomada, pedalo numa bicicleta ergométrica que tenho na minha sala, diga-se de passagem, que é um excelente cabide e os dias seguem na sua monotonia. Minha biblioteca de 500 livros é minha companheira, mas coitada, também reclama da solidão, pois pego um livro novo a cada 20 ou 30 dias e neste tempo ela fica la, abandonada, olhando, esperando que mãos ávidas por conhecimento a procurem, mas nada acontece. Para diminuir um pouco a falta de contato com os livros, de quando em quando, os mudo de lugar para que possam respirar e não sentirem tão abandonados como às vezes me sinto. A vida de aposentado não é boa, acreditem. Outro dia senti que tinha chegado à terceira idade. Tinha que fazer a renovação da minha carteira de motorista. Antes minha carteira de motorista me permitia dirigir qualquer tipo de veículos, inclusive carretas, mas com a aposentadoria, de contrapeso, minha carteira de motorista foi cassada e tive que fazer um processo administrativo junto ao DETRAN e consegui uma carteira de motorista categoria B, que me permite dirigir somente automóveis. Agora em 2020, quando fui fazer a renovação da CNH, uma surpresa desagradável, o INSS bloqueou administrativa minha CNH, proibindo definitivamente que eu volte a dirigir. Tudo bem, quanto a isso, mas na ocasião também tive que renovar minha Carteira de Identidade. Até ai, tudo bem, mas quando ela ficou pronta, veio com uma frase que não havia na anterior: MAIOR DE 65 ANOS. Fui oficialmente declarado IDOSO. Lógico que isto parece ser vantajoso, você tem vaga para estacionar (quando consegue uma) tem fila especial nos caixas dos bancos (quando tem caixa atendendo) pode usar ônibus urbano sem pagar pela viagem, pode inclusive fazer viagens interurbanas, desde que agende previamente. Dizem ate que você tem direito a passar na frente de outros em caso de consulta médica, mas somente dizem. Na pratica, é tudo igual. Como o numero de idosos também é grande, você nota que as filas dos idosos são cada vez maiores e o numero de atendentes não se altera. Vida dura esta de ficar velho. Outro dia me deparei com uma situação que nunca havia vivido. Meu carro quebrou e tive que ir a cidade e pela primeira vez fiz valer o meu direito de ir e vir e fui ao ponto de ônibus e depois de muitos anos, felizmente, utilizei novamente este veiculo, não antes de mostrar a identidade para o motorista e ele me mandar subir pela porta de trás do ônibus, onde fica o pessoal que esta prestes a descer. Ai eu pensei: Pronto, cheguei à terceira idade. E assim a vida segue. O assunto predileto são as dores que cada dia aparece uma nova, um novo remédio, a marcação de uma consulta com o cardiologista, com o reumatologista, com o ortopedista, com o dentista e a alegria e quando os filhos resolvem te visitar: Ai então se passa algumas horas como num Oasis num deserto. Tudo fica alegre e festivo e depois, tudo volta para a rotina; Esta crônica não é um ato de pessimismo, até porque a vida é bela. É sim uma forma cômica de analisar um estágio da vida que todos um dia, os que chegarem lá, é claro, irão passar. Um grande abraço amigos e vamos em frente.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

VIAGENS PARA DESBRAVAR O BRASIL PARA O HERMES PARDINI - A AMAZONIA E SUAS BELEZAS -

AMAZONIA – UM MUNDO VERDE. UM MUNDO DE SONHOS E FANTASIAS.


Vitória Régia -  Simbolo da Região Amazônica


Trabalhei no Instituto Hermes Pardini por 10 anos. Neste tempo todo passei viajando por todo o Brasil, divulgando o nome da empresa nos mais distantes rincões deste imenso pais. Fui do Oiapoque ao Chui e de 1996 a 2006, foram feitas parcerias com mais de 9000 laboratórios, que enviavam diariamente cerca de 25.000 amostras de pacientes para serem analisadas em Belo Horizonte. Foram milhares de quilometros percorridos em quase todas as estradas existentes, inúmeras viagens aéreas e algumas de navio. Algumas historias destas viagens já publiquei anteriormente, mas o fascínio que o nome Hermes Pardini provoca no leitores, me motivou a escrever uma boa historia sobre o maior estado brasileiro, a Amazonas e suas belezas.

Nesta publicação pretendo contar sobre minha viagem de carro à Boa Vista e Santa Helena na Venezuela, sobre as belezas de Manaus, a maravilha do encontro dos rios Solimões e Negro, quando começam verdadeiramente o Rio Amazonas, a descida de barco por este gigante até Belém, além de visitas nas cidades de Parintins, Óbidos, Oriximiná, Santarém, Belem e Macapá, 

Teatro Amazonas - Simbolo da cidade de Manaus


Tudo tem um inicio e meu trabalho na região norte começou por Manaus. Já conhecia a cidade de uma outra ocasião quando trabalhava para uma empresa de lista telefônica, mas agora a missão era outra. Implantar um escritório de apoio para atender os clientes locais do Hermes Pardini.  Esta era a pior parte do projeto, pois embora tínhamos clientes espalhados por todo o Brasil, a empresa Pardini, não era tão conhecida como hoje e tinha muitos concorrentes disputando o mesmo mercado. Via de regra eu trabalhava da seguinte maneira. Ainda em Belo Horizonte, antes de iniciar uma viagem para uma região desconhecida, procurava fazer contato com algum cliente ativo e combinava que iria despachar para eles material de trabalho, que eu pegaria tão logo chegasse. Aproveitava também este subterfúgio para descobrir possíveis funcionários e quase sempre dava certo.

Chegando a Manaus, me instalei num hotel proximo a Zona Franca e aluguei um carro para visitar os laboratórios da cidade e como nada conhecia, passei o primeiro dia mapeando a cidade, marcando o roteiro que pretendia fazer, mas o mais importante passo era contratar o representante que iria dar sequencia nos trabalhos quando eu partisse.

Quando tudo estava planejado iniciei as visitas aos laboratórios, mas nas duas primeiras não obtive exito no quesito indicação, embora ficasse contente com a chegada do Hermes Pardini na cidade. Na terceira visita, fui visitar o Laboratório Benzecry e fui  muito bem recebido pela proprietária, Dra. Andreia e durante nossa conversa, ela sugeriu que eu conhecesse seu irmão Samuel, que tinha experiência em vendas e estava desempregado no momento. Concordei em conhece-lo e marcamos um encontro para logo mais a tarde e quando ele chegou notei de imediato que ele tinha o perfil de pessoa que eu precisava. Acertamos os detalhes e ele foi contratado para ser o nosso representante, função que exerceu por mais de 10 anos com muito cuidado e responsabilidade.

Porto de Manaus - Movimento intenso todos os dias

Manaus, para quem ainda não teve oportunidade de conhecer é uma grande cidade, moderna. com um enorme parque industrial, um comércio forte devido a Zona Franca e também devido a industria do turismo. Situado à margem esquerda do Rio Negro, fica distante do Rio Amazonas uns 15 quilometros. Por ser uma cidade distante de outras capitais, só se chegava, na epoca, de avião ou de barco ou navio de porte médio. Hoje com a construção de uma ponte sobre o Rio Negro, já é possível, visto que o governo esta asfaltando, chegar a Porto Velho por terra e dali tem caminhos para todo o Brasil. Quando lá estive pela ultima vez, em meados de 2005, havia somente rodovia até a divisa com a Venezuela e para Itacoatiara.

Ponte sobre o Rio Negro que permite acesso a Porto Velho por terra.

Sempre tinha alguma novidade quando ia a Manaus. Certa ocasião a cidade estava sofrendo muito com as queimadas, tanto que quando o avião se aproximava da pista de pouso, somente a poucos metros do chão foi possível ver a vegetação em torno do aeroporto. A fumaça era tanta que conversando com um dos tripulantes da aeronave ele disse que naquelas condições, o pouso somente poderia ocorrer por instrumentos, pois não se enxergava nada da cabine da aeronave.

Também, devido as queimadas, a energia elétrica da cidade, que era fornecida por usinas movidas à óleo e com isso havia um racionamento em toda cidade. No hotel que eu estava hospedado a força era desligada às 9:00 horas e religadas às 17:00 horas. Eu, nesta viagem, fiquei por lá uns 20 dias.

Num final de semana, minha esposa veio me visitar, pois estava fora de casa à quase 03 meses e enquanto eu saia para trabalhar, ela ia passear nas lojas da Zona Franca e numa vez, ela resolveu jogar no bicho. Apostou R$ 5,00 no Pavão e para sua surpresa, a tarde, quando passou no cambista, soube que havia ganhado R$ 100,00. Vocês nem  podem imaginar a alegria dela. Sorte de principiante, pois até aquele dia nunca havia jogado.

Encontro das águas do Rio Negro com o Solimões - Inicio do Rio Amazonas


O final de semana foi muito agitado. O Samuel tinha arrumado com um guia canoeiro, um passeio pelo Rio Negro até o encontro com o Rio Solimões, dando inicio ao Rio Amazonas. Foi um passeio inesquecível, pois além de chegarmos bem no meio dos rios, onde as águas não se misturam, tivemos oportunidade de conhecer as vazantes dos rios, chamados de “parana”, onde moram muitos ribeirinhos. Depois, fomos levados por dentro da floresta, por caminhos que o guia conhecia, até um restaurante instalado num tablado flutuante em um grande lago. Foi servido uma das melhores refeições de peixe que se podia esperar. Rodizio de tucunaré, tambaqui e pirarucu e muita cerveja.

Peixes das mais variadas especies. Esta é a culinária local


Voltamos para Manaus no final do dia e já tínhamos um programa legal para o  dia seguinte: iriamos subir o Rio Negro num barco de 18 metros, pertencente ao um parente do Samuel. Foi inesquecível fazer um churrasco numa praia deserta de areias brancas na companhia de mais 30 pessoas. Junto com o barco, o parente da Samuel levou também uma lancha e um jet ski e foi a primeira e ultima vez que tive oportunidade de dirigir uma lancha, por pouco tempo, e dar uma volta de jet sky.

Voltamos para Manaus já no começo da noite e chegamos cansados no hotel, mas ainda sobrou tempo para tomar um tacacá, uma iguaria deliciosa, feita com goma de mandioca, tucupi, jambu e camarão. No dia seguinte, minha esposa voltou para São Paulo e eu fiquei trabalhando mais uns dias com o Samuel. Estávamos na Semana Santa. Eu iria na sequencia para Belém e como teria uns dias de feriado, resolvi abrir mão da viagem aérea e ir de barco, viagem que demoraria 05 dias.

Comprei um camarote neste navio e o preço era muito barato considerando o tempo de viagem, com refeições inclusas. Não tive a curiosidade de conhecer o navio antes da partida e quando cheguei no porto, notei que se tratava de um catamarã, todo de ferro, com uns 50 metros de comprimento e uns 15 metros de altura. O Samuel me ajudou a levar a bagagem até o camarote e ai notei que haviam apenas dois apartamentos para passageiros do lado direito do navio e dois do lado esquerdo. Eu ocupei um deles e uma familia ocupou o outro. Esta familia fez um trecho curto, somente até Parintins. Do outro lado, os camarotes eram utilizados pela tripulação. Por outro lado, em dois pavimentos abaixo do plano onde estavam os camarotes e a sala de comando do navio, haviam mais de 700 pessoas, todas em redes.

Era uma cena chocante e me senti muito mal em ver aquilo. Eu usando um apartamento com cama espaçosa, ar condicionado e logo abaixo, 700 pessoas em rede, sofrendo com o calor, chuva e com a falta de higiene, pois os banheiros eram imundos. Mas era muito barato. Não tenho idéia da epoca, mas se colocarmos no valor de hoje, eu teria pago pelo camarote por 05 dias, com refeições inclusas um valor semelhante a R$ 450,00, enquanto os que viajavam na rede estariam pagando um valor equivalente a R$ 150,00.

Na calmaria do gigante, milhares de quilometros de água e florestas


Na cobertura, quase ao lado dos camarotes, funcionava uma lanchonete e lá era o encontro do pessoal. Com o calor intenso, o consumo de cerveja era bem alto e fiquei muito amigo da tripulação, depois de pagar algumas duzias de cervejas para  eles. A viagem é linda e recomendo a todos um dia, se puderem que a façam. O Rio Amazonas é magico. Tem lugares que ele tão largo, que não se consegue enxergar a outra margem e tem um trecho, que ele fica estreito, perto de 02 quilometros de largura, mas neste ponto, perto da cidade de Óbidos, a profundidade, chega a mais de 1500 metros.

A primeira escala foi na cidade de Parintins, a capital brasileira do Festival do Boi. A parada ali foi rápida. Cerca de duas horas, mas foi o suficiente para conhecer rapidamente uma pedacinho da cidade, onde prevalece, nas casas, as cores vermelha ou azul, dependendo de que time o morador é torcedor. Se do Boi Garantido (vermelho) ou do Boi Caprichoso (azul). Todo ano, ali é realizado um festival, que se assemelha muito com o Carnaval do Rio de Janeiro, onde existe a disputa do melhor desfile entre as duas agremiações.

Seguindo a viagem, outro detalhe que me chamou a atenção foi o carregamento de açaí. Em pontos já previamente combinados, o navio toca uma sirene e reduz a velocidade da embarcação. Nisso, pessoas manobrando canoas apenas no remo, se aproximam do navio, que não para, se amarram ao barco por cordas e transferem balaios cheios da fruta. Quando a operação termina, eles se soltam do navio e voltam para suas casas, todas casebres, à beira do Rio Amazonas, cercadas de arvores por todos os lados.  Este procedimento de se repetiu por diversas vezes durante a viagem e acontecia inclusive durante a noite. Quando o navio aportou em Belém havia mais de 100 balaios de açaí.

Outra cena que ficou gravada na memória foram as crianças dos ribeirinhos. Pilotando uma pequena canoa, meninos e meninas, alguns com idade aparente de 05 anos, iam de encontro ao navio e ficavam acenado para os passageiros jogarem coisas para eles. Parece que já era um costume estabelecido, pois eram atirados dezenas de sacos plásticos, uns com roupa, outros com comida e ai se notava a pericia daquelas crianças em manobrar suas canoas para recolher os pacotes lançados.

Visto do alto, o Rio Amazonas em alguns trechos é um enorme emaranhado.

A viagem que durou 05 dias, teve muitos momentos inesquecíveis, mas não posso deixar de relatar a parada do navio em Santarem. Ali ficamos parado por umas 05 horas, tempo necessário para o navio ser carregado com uma enorme carga de peixes, Dentro do navio havia uma grande câmara frigorifica e os peixes eram retirados de caminhões estacionados num plano mais alto e jogados diretos para o navio através de uma rampa feita especialmente para isso. Não consigo imaginar a quantidade de peixes e tamanhos que  foram embarcados, mas eram muito peixes. Mas o que me chamou mais a atenção foi o que vi no Porto de Santarém: uma floresta de madeira cortada (mogno), embalada, pronta para ser embarcada para a Europa. Podem imaginar uma  linha de uns 150 metros de comprimento, por uns 05 metros de altura e 05 de largura. Bem este era o volume de madeira que estava a espera de um navio para ser enviado para algum pais europeu. Fiquei indignado com a cena, mas creio que a mesma se repete até os dias de hoje.

Milhares de árvores são transportadas pelos rios da região


Para completar a viagem, até a chegada à Belém, tenho que relatar como era servido as refeições. A comida era igual para todos, tripulação e passageiros. Eram servidos num grande salão em horários previamente agendados. Café da manhã, almoço e jantar. Mas o diferente era o tratamento. Dentro do salão, havia uma pequena sala, toda fechada com vidro e com ar condicionado. Ali é que era servido as refeições para a tripulação e para mim, o único passageiro que viajava nos camarotes. Os outros passageiros também eram servidos, mas em mesas colocadas ao longo do salão, sujeitos às intempéries do tempo.

Esta viagem foi inesquecível, mas teve outra com muita mais emoção, quando resolvemos ir a Boa Vista de carro, abrindo mão da passagem aerea, que tínhamos direito.

Nesta  viagem eu já tinha o escritório montado e uma secretária eficiente que ajudava o Samuel na coleta dos exames. Eu estava programado para fazer a viagem até Boa Vista de avião, mas pelo espirito de aventura, resolvi faze-la de carro. O Samuel tinha um chevette e combinamos que iriamos sair cedo para chegar ao entardecer na capital do Acre.

Iniciamos a viagem por volta de 09 horas e ao chegar na primeira cidade, Presidente Médici, resolvemos não abastecer, contando que íamos encontrar postos de combustíveis pela estrada. Seguimos a viagem tranquilos até a chegada de uma reserva índia, controlada pelo Exercito. Fomos parados e instruídos que não poderíamos parar em parte alguma da estrada dentro da reserva, pois corria risco de ser atacados pelos índios que lá habitavam. Não havia socorro, não havia nada. Era acelerar e atravessar os 160 quilometros de estrada sem nenhuma parada. Normalmente, você percorre uma distancia desta em uma hora e pouco, mas dentro da floresta é diferente. Primeiro, devido a quantidade e altura das árvores, tivemos que fazer toda a viagem de farol ligado. Não tinha espaço para o Sol jogar sua luz na estrada, salvo em pequenos trechos. Mata fechada o trecho todo. Não vimos uma alma viva siquer, nem índio, nem bichos. Mas durante a travessia, que durou quase 02 horas, o coração batia acelerado.

Quando terminamos a travessia da reserva, tinha um pequeno posto de gasolina, mas sem gasolina. Era apenas um posto. Não tinha nada. Compramos um refrigerante e tivemos a informação que a 120 quilometros à frente tinha um posto de gasolina. Nesta altura, o odômetro marcava meio tanque e ainda faltava mais de 400 quilometros para chegar. O combustivel iria acabar antes. Seguimos viagem, atravessamos a Linha do Equador e quando chegamos no tal posto, para nossa decepção e preocupação, também não havia gasolina para vender. Ainda restava uns 300 quilometros para chegar e pouco mais que um quarto de gasolina. Ai começou realmente a aventura. Começamos atravessar dezenas de igarapés, todos, literalmente todos, com as pontes quebradas. Cada uma delas tinha um jeito de atravessar, até passando pelo igarapé, com a água chegando no assoalho do carro, mas o que mais preocupava ainda era o combustivel. Estava acabando.

Na viagem para Boa Vista passamos pelo marco que indica a linha do Equador


Começamos a dirigir em ponto morto. Acelerava o carro até ganhar velocidade e ai jogava ponto morto e deixava ir até quase parar e depois acelerava novamente. Uma hora fiz um teste e desliguei o motor e rodamos um longo trecho com o carro desligado e passamos a trabalhar desta maneira, mas mesmo assim, o combustivel estava acabando. De repente, acende a luz de reserva  e ainda faltava uns 80 quilometros para Boa Vista. Tinha começado a chover e ficar escuro. O movimento na estrada era minimo, de vez em quando cruzava um caminhão, mas era muito pequeno o movimento. Já estavamos conformados com a idéia de ter que dormir no carro, quando do nada,  aparece uma luzinha. Era um posto de gasolina. Chegamos lá praticamente com 100 ml de combustivel no tanque. Foi um presente da Deus.

Só de imaginar dormir a noite ao relento, em plena Floresta Amazônica, já é bem complicado, agora se realmente tivesse acontecido, hoje, certamente, estaria contando uma historia de terror. Chegamos em Boa Vista por volta de 19:00 horas. Lamentei muito ter vindo de carro. Poderia até voltar de avião e deixar o Samuel voltar sozinho, mas ai seria muita sacanagem.

Trabalhamos quatro dias em Boa Vista, contratamos uma vendedora, visitamos todos os laboratórios da cidade e retornamos a Manaus. Enchemos o tanque e pelos cálculos, daria para chegar em Presidente Figueiredo. Lá colocaríamos combustivel novamente e dava para  chegar com folga  a Manaus. Só que quem quer voltar para casa, sempre anda um pouco mais depressa. Essa parece ser a regra. Foi o que aconteceu. Voltamos um pouco mais depressa e não deu outra. A 15 quilometros de Presidente Figueiredo a gasolina acabou. Paramos no acostamos e o Samuel pegou uma carona e foi até a cidade buscar combustivel. Por conta disso chegamos em Manaus já bem a noite.

O duelo dos bois Garantido e Caprichosos tornaram Parintins um centro turístico nacional


Manaus sempre me trás grandes recordações, mas não posso deixar de contar a beleza que é o Festival dos Bois Centro de Convenções de Manaus, o encontro entre os grupos folcloricos Caprichoso e Garantido. É como uma disputa de final de campeonato brasileiro. Arquibancadas lotadas, os Caprichosos, vestidos de azul e o time do Garantido de vermelho, a cor que o Samuel usava tocando um enorme bumbo. Tudo isso regado a cerveja gelada e muita alegria, afinal, nem tudo era trabalho.